GUIA DEL VIAJERO

 

- Deixe o pior para depois.

- Se não conseguirem identificar de onde você vem, deixe essa dúvida no ar.

- Esqueça o que vai fazer. Só se lembre no momento exato.

- Apenas o acaso existe e faz sentido.

- Evite manter o controle.

- Não adianta se preocupar com o que não está sob seu controle.

- Vá ouvir uma música e escrever de vez em quanto.

- Se não estiver se divertindo, observe com cuidado o que se passa ao redor.

- Agir por impulso também faz parte do jogo, mas as possibilidades de quebrar a cara aumentam.

- Se quiser falar com alguém, fale. Mesmo que seja uma saudação mínima.

- Não se deixe impressionar pelo tempo.

- Qualquer chance pode ser única.

- Saiba diferenciar uma iguana de um jacaré.

 

             



Escrito por los inertes às 17h41
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SAMBA NO PÉ

 

À noite todos os gatos são pardos, ou negros, ou malhados. Ou: à noite todos os gatos saem para fazer arruaça. Por ali tudo era muito mais do que uma batucada inconseqüente. J. , o turista, tentava. Um turista quer apenas esquecer. Para quem enxerga o mundo com os olhos de um turista, tudo acaba em samba.

A noite é persistente. Ainda é possível dar mais uma, porque samba e amor são feitos até mais tarde. Pode-se sempre quando... Pode-se quando sempre...

J., o turista, praticava o arrependimento. Arrependia-se dos anos perdidos. Arrependia-se por sua antiga desatenção. Arrependia-se por tantos arrependimentos. Porém, agora sim. A nega desata o sorriso e refaz a noite com o samba a escorrer pelos pés.

 

                       



Escrito por los inertes às 23h05
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URUBUS

 

Inerte 1 ( Professor Helmold)

 

Hoje eu me perguntei uma coisa. Parece tolice, mas deve ter alguma boa explicação lógica.

Porque voam os urubus ?

Porque ficam horas pairando, sem chegar a lugar algum, apenas divertindo-se com as correntes de ar ?

Aparentemente eles não têm nada a ganhar com isso.

Não estão caçando.

Não estão comendo.

Não estão dormindo.

Não estão fazendo sexo.

O que mais podem aspirar os animais ?

 

Eu havia saído da sauna e deitei numa cadeira ao sol, de óculos escuro.

Dei de cara com um céu de azul intenso, mas muitas nuvens, em várias altitudes.

Na frente de uma grande nuvem baixa, havia -primeiro- um casal de urubus. Dominou o pedaço um bom tempo. Calculei que estivessem a uns mil metros de altura. Não faziam nada, exceto se equilibrar em círculos. Apenas com as asas abertas, como se fossem umas gaivotas negras, ficavam pairando daqui ali, e voltando. Eram pontas negras sobre o fundo branco da nuvem. Fiquei olhando um bom tempo. Estava bonito e eu estava relaxado, me sentindo parte daquilo ali. Então foram aparecendo outros urubus. Geralmente de dois em dois, ou seja, casais. Mas no final voavam todos em formação ensaiada, como um esquadrão da Luftwaffe.

A minha conclusão, a única possível ali no momento para um não biólogo, é de que aquelas aves, os urubus, "brincavam", o que significa portanto que tinham perfeito consentimento da sensação lúdica que uma brincadeira pode conter.

Os urubus brincam, pois.

Detalhe: lá em cima a temperatura pode já beirar os 6º C.

 

Inerte 2 (Inerte Comum)

 

Os urubus voam porque não lhes resta nada mais a fazer. Por não terem nada que lhes atrapalhe, eles voam.

Por que não ficar apenas pairando no ar? 

Imagine que você fosse um urubu e pensasse como um homem.  Você não ficaria pairando no ar o tempo todo e  não teria a desculpa de não ter asas.  Você não ficaria planando o tempo todo por achar que existem coisas mais importantes que isso. O que seria uma grande mentira.

 

             

                                                                 



Escrito por los inertes às 22h17
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O REDATOR

 

O redator recebeu a ordem de ser o mais isento possível. Corrigia a sua escrita quando se aproximava de alguma presunção. Os fatos falam por si e pronto. Tudo minuciosamente planejado. O redator sabe que é cômodo ignorar aquilo que nos foge à compreensão, e o quanto somos apegados à nossa meia-dúzia de convicções e seus mínimos indícios. O redator recolhia todos os acontecimentos, fazia exercícios de memória, separava as palavras, especialmente os adjetivos e os possessivos. Chegou até onde poderiam restar dúvidas, mas parava quando uma opinião se insinuava, no seu limite. Os fatos falam por si e pronto. Por enquanto é essa a grande regra, apesar de cada palavra trazer impressa a marca de quem a escreve. Assim como a imagem de algo é sempre o olhar de alguém.

 

                    

             

 

               



Escrito por los inertes às 23h23
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ACONTECIMENTOS INERTES QUE MARCARAM  2007

 

  • O Rei Juan Carlos, irritado com o discurso do presidente venezuelano Hugo Chaves, proferiu a célebre frase que muitos gostariam de ter dito( não somente ao líder sul-americano como também às suas sogras): “Por qué no te callas?” .
  • O Nova Iguaçu foi rebaixado para a segunda divisão do campeonato carioca.
  • Mônica Veloso, ex-amante do Senador Renan Calheiros, posou nua na Playboy.
  • Paris Hilton foi presa por dirigir embriagada e sem habilitação, passando 23 dias em cana.
  • Um paleontólogo búlgaro chegou a uma conclusão que vai de encontro ao que parecia irrefutável no final de 2006: a galinha veio antes do ovo. Segundo o pesquisador, a galinha é descendente de um mamífero plúmeo que habitava a região do lago Titicaca, o galineos espamathosys. Uma mutação ocorrida durante um período pós-glacial, provavelmente devido a maior incidência de raios infra-vermelhos, fez com que essa espécie passasse a colocar ovos.
  • O estilista Ronaldo Ésper foi preso ao tentar roubar algumas ornamentações fúnebres num cemitério da capital paulistana.  
  • O astro de futebol de botões  Faber Rennó pendurou a palheta e passou a se dedicar à música. Ele pode ser visto soltando a voz com freqüência em memoráveis serestas na aprazível estância mineira de Santa Rita do Passa Quatro .
  • As Spice Girls retornaram, depois de 10 anos, num show durante o desfile da grife Victoria´s Secret.  
  • Luana Piovane declarou em seu blog ser a musa de Caetano Veloso na música “Um Sonho”. Caetano a princípio negou, mas depois voltou atrás em junho, durante um show.
  • Foi descoberto por uma pesquisadora indiana, Yvana Sutra, porque quando estamos com vontade de espirrar e olhamos para o sol ou para uma lâmpada, espirramos com maior facilidade. Segundo a cientista, esse fato ocorre pois as mensagens visuais enviadas para o nosso cérebro passam próximas daquelas enviadas pelo nervo olfativo e pelo trigêmeo, que comandam a contração dos nervos da mucosa nasal, estimulando, assim, o mecanismo do espirro.
  • O mineiro Walnei Almeida Reis, saltou de um helicóptero a 48 metros de altura para a piscina do Clube de Regatas Tietê, em São Paulo. "De cima, a piscina parecia um copo de água", declarou Walnei, que com o seu salto superou o norte-americano Hank Dikson, antigo detentor do recorde.
  • O goleador Dimba do Brasiliense se revoltou após um jogo de seu time em que se sentiu prejudicado pela arbitragem: "O que aconteceu aqui é caso de Polícia Federal, de FMI, voltar pênalti porque torcida está gritando é brincadeira", protestou Dimba, querendo se referir ao FBI, a polícia federal dos Estados Unidos.
  • O blog Manual Complicado de Inércia vai ficar cada vez mais inerte em 2008, por motivos alheios à nossa vontade. Devagar, quase parando.

                   



Escrito por los inertes às 10h57
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ANIMAIS DE ESTIMAÇÃO

 

Ela se cansou de animais de estimação e resolveu casar-se com Jonas. Não que ele não fosse um animal — de estimação — pelo contrário. No puro sentido da palavra, tratava-se de uma excelente diversão. Puxava com desenvoltura o arado, fazia previsões meteorológicas certeiras, domesticava gansos, uivava o suficiente para afugentar pássaros nocivos, pescava com as mãos, era um notável vigilante, veloz como um antílope, sagaz como um velho macaco, fornicador incansável. Se não entretinha Ofélia com truques ou com o clavicórdio, lá vinham as piadas. Piadas de corcundas, de padres, de galinhas que colocavam ovos cor-de-rosa vendidos nos botequins, da mãe que subiu no telhado. Ah! Ele também costumava subir no telhado para se exibir e freqüentava botequins, onde se empanturrava de ovos cor-de-rosa e cerveja negra com tutano. Ela o amava. Queria escolher qualquer um, mas os homens apenas pensavam em comê-la. Era dona de um corpo e tanto, os seios apontavam para as estrelas, suas pernas eram magníficas, caminhava com elegância, os braços, leves, de uma leveza que começava nas suas costas, na sua envergadura frágil, e ia espalhando-se por todo o ambiente. Uma lebre de imaginação fértil, olhar aristocrático, e que sabia muito bem cativar e desvencilhar-se de um suposto pretendente. Deixava-se persuadir. Tinha a exata noção de como insinuar que possuíam afinidades e de como esquecê-las. Ofélia e Jonas não tinham afinidades. No princípio, pareciam evidentes. Evidentes demais para não serem colocadas à prova. Julgavam o tempo curto, queriam distendê-lo e descuidavam, e daí surgiram as acomodações. Primeiro veio o período da estranheza, depois o da submissão. Lá pelas tantas ele chegava em casa no horário estipulado. Ela estava pronta com o seu tubinho básico. Ele colocava o tipo de música predileta de Ofélia, fazia-lhe massagens de Do-In no pé, estalando o seu pescoço ao final , abria uma garrafa da melhor champanhe imaginável, acendia um incenso. Ela estava pronta e chamegosa. Ela  submeteria-se.

Vieram mais algumas fases, sem que a fase da submissão fosse superada. Por isso, tudo acabou, sem que nenhum dos dois desejasse o fim.

 

                         

                                     Saphic couple - Auguste Rodin



Escrito por los inertes às 20h46
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A FAMA A QUALQUER CUSTO

 

Foi num programa de atrações bizarras, onde imitaria Zagalo. Eliminado. Mais parecia uma imitação de Roberto Carlos. Não se conformou com a eliminação, mostrou o papel de caderno. Um rabisco mal feito. Close das câmeras. Ele disse que na verdade o seu show estava apenas começando. O apresentador, como o programa estava adiantado e era mesmo uma espécie de vale-tudo, disse que daria uma chance. Está bem uma nova chance. Qual a segunda parte do show? Pois bem, estão vendo esse autógrafo de Michael Jackson aqui? Vou transformá-lo num autógrafo do Dalai Lama. O calouro não haveria de ter futuro como humorista. Mas o que é a natureza! Não era o tipo cujas feições convidam a uma boa gargalhada. Anunciava aqueles disparates como um piloto de Boeing anuncia as condições meteorológicas. Vá lá... É isso? Transformar um autógrafo do rei da dancing music em um do líder espiritual do Tibet, que percorre o mundo em pregações, um Xamã.

Esfregou o papel com a mão. Quando ele mostrou o novo autógrafo, a platéia ficou perplexa. Algum especialista poderia se interessar pelo caso e atestar sua autenticidade. Mas não seria ali, e foi eliminado mais uma vez. Os garranchos não eram, de fato, os mesmos. Pelo menos isso.

O calouro disse que o seu número ainda poderia continuar. Mas o assistente de direção alertou que chegava. Ele ainda, sendo retirado pelos seguranças, anunciou que poderia dançar à la Michael Jackson qualquer música do Roberto Carlos e a cantaria adaptando as letras com ensinamentos do grande Dalai Lama.  Queria a fama a qualquer custo.

 

                                                      



Escrito por los inertes às 09h01
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RANCORES

 

Sentou-se ao computador. O telefone tocou e prosseguiu. Não importa. O telefone não parava de tocar. Como tem gente insistente!

Sempre se arrependia quando era tarde demais. Seu amor-próprio era precário, por isso estava ali escrevendo aquele e-mail: “não devemos alimentar rancores”. Aquela frase o deixou estático. Por que começar assim? Mais uma das suas frase feitas. Ela nunca o perdoaria. Talvez fosse um excelente ponto de partida para todo tipo de interpelações.  O telefone não pára. Foi atender, ficaria louco se não o fizesse.

“Alô?”

“Alô, seu canalha”, era uma mulher e ele não reconheceu a voz.

“Quem fala?”

“Você não sabe? Não seja cínico?”

“Realmente não sei.”

“Hipócrita!”

“Não reconheço a sua voz.”

“Mas eu reconheço muito bem a sua.”

“Então, quem é você?”

“Hipócrita!!!”

“Vou desligar então. Já que você não quer se identificar.”

“Cínico, Safado.”

“Querida... seja lá quem for... não devemos alimentar rancores”, desligou.

 

                         



Escrito por los inertes às 09h20
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BEIJOS COM TRANSPOSIÇÕES

 

Ela foi consultar a bula do remédio para asma. Procura a caixinha do espargidor na bolsa, retira o impresso e nota algo manuscrito, sem assinatura. Imediatamente reconhece a caligrafia: era a do seu colega que trabalhava também no almoxarifado. Ele escreveu que a moça era a mais sublime e perfeita criatura sobre a face da Terra e que a amava em segredo. Devia ter revirado sua bolsa e deduzido que a moça só usava aquilo de noite. Ela ficou indignada. Como ele teve o desplante de vasculhar a sua bolsa?  Sim, ela sabia que aquele olhar a seguia furtivamente.                      

Ela foi trabalhar no dia seguinte mal-humorada. Durante toda manhã não dirige a palavra ao seu colega. Ainda bem que ele acumulava as funções de office-boy da firma e passava boa parte do tempo fora.

O rapaz está louco de paixão. Decidiu que aquele era o dia de revelar os seus sentimentos. Não dava mais para adiar. Depois do expediente foi direto para o mercado de quinquilharias vender o que tinha de mais precioso: o seu álbum de cromos sobre a vida do Marechal Rondon. Teve que realizar até um leilão improvisado pois aquela raridade despertou a cobiça de muitos.  Conseguiu mais do que esperava.

A moça enfrentava uma jornada dupla de trabalho. Quando terminava o serviço do almoxarifado ia direto ajudar a mãe na sua loja de beijos.

Já era quase o fim do expediente da loja de beijos quando o seu colega do almoxarifado aparece com um buquê de flores variadas. Ele aproxima-se, estende-lhe as flores e coloca no balcão tudo o que tem nos bolsos: duzentos reais.

Ela hesitou, chamou a mãe e pediu que ela guardasse as flores. Não sabia o que fazer diante daquela situação. Percebe o dinheiro no balcão, próximo à caixa registradora. Era uma profissional justa no entanto.

“Esse dinheiro dá para um beijo de cinco minutos com transposições de língua”, ela contabilizou.

O rapaz, então, retrucou:

“O que desejo é apenas um leve toque nos seus lábios.”

E ficaram os dois esperando o desenrolar dos acontecimentos, num impasse, até que ela o esbofeteou antes do beijo apaixonado com transposições de língua.

 

                        

 



Escrito por los inertes às 22h59
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SORTE

 

Sorte de quem não tem pressa, e faz o que está ao alcance, e deixa o dia fluir sem compromisso, e chega na hora certa mesmo atrasado, e está confiante, e sente que é ouvido, e tem os intestinos bem regulados, e encontra o que deixou em algum lugar, e não precisa perder peso, e consegue acertar-se no ritmo da música, e pode contar com alguém para revelar pequenos segredos, e não se importa de ser observado, e dorme um sono reparador, e tem algumas obsessões, e está seguro do silêncio, e pode caminhar sem medo a qualquer hora, e recebe massagens gratuitas, e sorri sem se dar conta, e pode reencontrar os amigos quando quiser.  

 

                                   

 

             



Escrito por los inertes às 11h39
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SUBLINHAR FRASES 

 

É prática comum sublinhar frases em livros. É uma espécie de impulso, mas quase todas ficam perdidas ali sublinhadas e outras se tornam um mistério quando voltamos a folhear um livro depois de muito tempo. Por pura curiosidade inercial, aí vão 10 frases, não necessariamente as TOP 10, escolhidas ao acaso (por estarem “à mão” no momento), segundo certa cronologia.  

 

1-     E é graças aos encontros inesperados dos velhos amigos que eu fico reconhecendo que o mundo é pequeno e, como sala-de-espera, ótimo, facílimo de se aturar... (Guimarães Rosa – Sagarana)

2-     A característica do homem imaturo é aspirar a morrer nobremente por uma causa, enquanto que a característica do homem maduro é querer viver humildemente por uma causa (J.D, Salinger – O Apanhador no Campo de Centeio)

3-     Tem coisa mais autodestrutiva do que insistir sem ter fé nenhuma?  (Caio  Fernando Abreu – Morangos Mofados)

4-     ... mas de qualquer forma aqui ele está no lugar certo como em nenhuma outra parte, como raramente a música encontra o momento que a espera. (Kafka – O Povo dos Camundongos)

5-     Existem duas maneiras de não sofrer. A primeira é fácil para a maioria das pessoas: aceitar o inferno e tornar-se parte dele até o ponto de deixar de percebê-lo. A segunda é arriscada e exige atenção e aprendizagem contínuas: tentar saber reconhecer quem e o que, no meio do inferno, não é inferno, e preservá-lo, e abrir espaço. (Ítalo Calvino –As Cidades Invisíveis.... esse trecho é um caso sério)

6-      A verdade nem sempre está no fundo de um poço (Edgard Allan Poe – Os Assassinatos da Rua Morgue)

7-     Não estariam eles um tanto rápidos demais, apressados demais em suas falas, prontos para interromper um ao outro? ( Katherine Mansfield – Felicidade e outros Contos.... aqui cabe um comentário inercial, quantas vezes ao invés de um diálogo nós não estamos é travando um monólogo alternado com outra pessoa?)  

8-     Não é só o sexo que é corrupção – é o resto. Sexo não é só atrito e diversão superficial. É também uma maneira como nos vingamos da morte. (Philip Roth – O Animal Agonizante)

9-     Quando estou em harmonia com as coisas, disse o sr. Keuner, eu não compreendo as coisas, elas me compreendem. (Bertolt Brecht - Histórias do Senhor Keuner)

10- Sempre há o perigo de se habituar com as distorções e não saber mais discernir o mundo normal do anormal ( Haruki Murakami – Dance Dance Dance)

 

Foto Cartier Bresson

 



Escrito por los inertes às 08h42
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O VENDEDOR DE TAPETES

 

O vendedor de tapetes insistiu, ante a recusa da turista.

“Essa aqui é uma promoção imperdível. Vou vender para a madame pela metade do preço”

Ela, ainda tentando ser educada:

“Não compro coisas por serem mais baratas. A última coisa de que preciso agora é de  um tapete.”

O vendedor não se deu por vencido e tentou convencê-la, ou melhor, confundi-la.

“ Muitas vezes o que não queremos é apenas o que achamos que não queremos. Temos sempre que pensar com cuidado, freguesa. Não devemos ser precipitados. Alguém pode se declarar infeliz sem estar certo disso.”

“ Mas eu não estou feliz nem infeliz. E isso não vem ao caso”, ela retrucou irritada, achando um absurdo alguém usar um argumento tão tolo. Era um grande incômodo dar ouvidos a um imbecil daqueles, não queria saber de mais nada.

Ela escapou rapidamente. Na verdade sentia-se mesmo infeliz. Viajava sozinha, buscava livrar-se momentaneamente de seus problemas. Ansiava por esquecê-los o quanto antes e entendeu que precisava ainda de um tempo que não conseguia dimensionar.

Seguiu pela praia deserta, a brisa fria e úmida era muito desagradável e ela se esforçava para retornar à pousada o mais rápido possível.

Começou a maldizer o tempo. Falava sozinha quando uma lufada mais forte quase a derrubou. Era o vendedor que reapareceu. Ele se exibia em rasantes naquele tapete voador.  

 

                                

 



Escrito por los inertes às 23h00
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Ora Blogs.

 

A mulher tornou público seu diário. Adolescente, ficava à procura de recortes de revistas com a palavra desejada, colocava fotos de seus artistas favoritos, revelava segredos, escrevia cifrado. Anos depois, apenas anotava na agenda as listas de compras, colava não mais retratos, mas saldos bancários, o receituário do filho, enumerava os compromissos profissionais. Tudo muito sucinto e preciso. Procurava o seu tempo e agora, decidiu, o tempo perdido inclusive. E foi numa dessas que uma amiga lhe disse entusiasmada que escrevia um blog. Ela, boa em trocadilhos, não se interessou a princípio. Achou, logo de cara, cafona o diário eletrônico da sua amiga e deu uma desculpa.

“Putz, acho que teria um blogueio mental” 

Depois, letrada que era e secretária bilíngüe, começou a ter idéias. Prática como ela só, começou a imaginar as possibilidades. Não podia perder tempo com essas bobagens, tinha que sustentar o filho de 8 anos, sua prioridade cega, seus exageros maternais de primeira e única viagem, mas fez perguntas de praxe.

“ ... é fácil fazer um blog?”

A amiga entusiasmadíssima porque havia conquistado um namorado graças a troca de comentários no blog, disse que era ridículo, ofereceu-se para ensiná-la. Aliás, se ela quisesse, fazia um ali na hora.

A outra, depois de um cálice de vinho e com o filho dormindo, já meio achando que qualquer prazer a divertiria, foi adiante:

 Porquoi pas?”

De fato era muito fácil. Ela tinha jeito com computadores e a amiga era verdadeiramente uma expert.

Na semana seguinte, lá estava com a receita de bolo para editar anotada na agenda, logo abaixo do orçamento de um armário embutido com escrivaninha para o filho. Esperou o garoto dormir e abriu o vinho tinto demi-bouteille que comprou para ocasião. Mãos à obra:

“ Nunca pensei em tornar público um diário...”, blogueio mental. E foi anotando tudo que a fazia sentir-se insegura, colocou frases sublinhadas em livros. Lembrou-se de Eliot: escrever é uma forma de livrar-se de seus tormentos (havia acabado de ver um filme sobre Vinicius de Moraes, onde Ferreira Gullar o citava). E seguiu adiante, tomando algumas precauções, é claro.   Dar uma lidinha básica para cortar os excessos. Uma podada, como ensina Garcia Marques.

No dia em que recebeu o primeiro comentário no blog, de alguém que não conhecia, exultou.

“Putz, todo blogueiro iniciante tem sede de comentários”, pensou.

 

                                       



Escrito por los inertes às 22h14
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EVOLUÇÃO

 

A Escola de Samba evolui. Evoluir pode significar melhorar ou ir adiante. Ir adiante pode significar evoluir ou dar com os burros n´água. Dar com os burros n´água pode significar perder tempo ou adquirir experiência. Perder tempo pode significar chegar na hora certa. Adquirir experiência pode não ter utilidade alguma. Chegar na hora certa pode nos decepcionar. Uma grande decepção pode advir de um pequeno detalhe. Algo sem utilidade alguma pode ter utilidade no futuro.  Decepcionarmo-nos pode não ter nenhuma importância adiante. Um pequeno detalhe pode decidir um jogo. Um décimo de ponto pode decidir um desfile carnavalesco. A Escola de Samba perdeu por um décimo, quesito evolução.

 

                                                         



Escrito por los inertes às 23h04
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MILES

 

Olhou para Miles e ele fez um gesto que, se não era de reprovação, parecia ser um pedido de calma. Quando se está ali, na presença de Miles, sabe-se que aquela é a maior chance de sua vida. Não conseguia ver os seus olhos, escondidos sob enormes óculos escuros. Recebeu diversas recomendações no ensaio e portou-se bem. Até levou um tapinha nas costas de Miles. Sabe-se lá o que isso significa?  É claro que tinha uma boa idéia do que representava, mas não o suficiente. Foi o escolhido justamente por isso: não se intimidaria. Seria o melhor substituto, escolhido pelo próprio Davis. Debochado, desenvolto, petulante, mas que parecia saber a hora certa de recolher-se. Nunca sabemos ao certo porque somos os escolhidos. Miles é um homem tranqüilo. Ele chegou num ponto em que qualquer detalhe pode ser bem-vindo se soar bem.  Ou desde que possa vir a soar bem. Foi quando o outro insistiu num rumo diferente. Miles levou adiante. Ele sabe que o mundo mudou.  Ele sempre foi o cara. Miles aproveita e faz uma graça. Emenda um La vie en Rose para que o outro entenda. A platéia sorri. A platéia agora quer uma viagem compreensível e divertida. Este é o espírito de um mundo cansado de experiências vazias. O outro fica desbundado, volta à sua base quadradinha, falam a mesma língua, para bom entendedor um semitom basta. Miles sorri, é a primeira vez que faz isso então, e aproxima-se enquanto sustenta uma nota na surdina. Chama o outro num particular. Entrega de bandeja o solo, depois de um pequeno esbarrão, e sai de cena. Sabe-se lá o que isso significa?  Já tinha sacado que se tratava da linha em que o outro se sentia à vontade. O outro percebeu que por ali ficava fácil ir com tudo. A platéia delira.

Miles está muito econômico em seus sorrisos hoje. Está cansado, apesar de parecer um menino. Um fotógrafo exagera nos flashes. Sua generosidade parece não ter limites. Corria o ano de 1990. 

 

                                  



Escrito por los inertes às 23h00
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