GUIA DEL VIAJERO

 

- Deixe o pior para depois.

- Se não conseguirem identificar de onde você vem, deixe essa dúvida no ar.

- Esqueça o que vai fazer. Só se lembre no momento exato.

- Apenas o acaso existe e faz sentido.

- Evite manter o controle.

- Não adianta se preocupar com o que não está sob seu controle.

- Vá ouvir uma música e escrever de vez em quanto.

- Se não estiver se divertindo, observe com cuidado o que se passa ao redor.

- Agir por impulso também faz parte do jogo, mas as possibilidades de quebrar a cara aumentam.

- Se quiser falar com alguém, fale. Mesmo que seja uma saudação mínima.

- Não se deixe impressionar pelo tempo.

- Qualquer chance pode ser única.

- Saiba diferenciar uma iguana de um jacaré.

 

             



Escrito por los inertes às 17h41
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SAMBA NO PÉ

 

À noite todos os gatos são pardos, ou negros, ou malhados. Ou: à noite todos os gatos saem para fazer arruaça. Por ali tudo era muito mais do que uma batucada inconseqüente. J. , o turista, tentava. Um turista quer apenas esquecer. Para quem enxerga o mundo com os olhos de um turista, tudo acaba em samba.

A noite é persistente. Ainda é possível dar mais uma, porque samba e amor são feitos até mais tarde. Pode-se sempre quando... Pode-se quando sempre...

J., o turista, praticava o arrependimento. Arrependia-se dos anos perdidos. Arrependia-se por sua antiga desatenção. Arrependia-se por tantos arrependimentos. Porém, agora sim. A nega desata o sorriso e refaz a noite com o samba a escorrer pelos pés.

 

                       



Escrito por los inertes às 23h05
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PATRULHA DA CIDADE

 

Minha mãe e minha tia sentiam uma verdadeira obsessão pelo trágico, e ficavam hipnotizadas com alguns programas de rádio em que o locutor impostava a voz de maneira alarmante, com uma música incidental dramática pontuando a narrativa e um sonoplasta gaiato a reproduzir todo tipo de barulho. O espetáculo da dor pode ser bem-vindo. Se falso, nos ajuda a entender nossos problemas e nos dá força para conviver com eles. Somos confortados porque estamos distantes, estamos comodamente instalados numa poltrona enquanto o infortúnio arruína os outros numa trama ensaiada. Aquelas narrativas, travestidas de novelas de rádio, soavam como genuínas farsas. Os passos dos vilões da época eram acompanhados em cada capítulo de sua saga maldita ao mesmo tempo em que permeava a sensação de que poderíamos topar com algum deles na próxima esquina, de que receberíamos alguma recompensa ao fornecer alguma pista para a sua captura. Onde andará Cara de Cavalo? Será preso amanhã? O que sofrerão as suas vítimas? Minha mãe e minha tia escutavam apreensivas. A Patrulha da Cidade era a tragédia grega delas.

 

                             



Escrito por los inertes às 17h54
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A ARTE CAVALEIRESCA DO ARTILHEIRO ZEN

 

O Boca é um time mais organizado, cada um parece seguir um script bem ensaiado em que os jogadores do Flu são os coadjuvantes e estão prontos para dar a sua humilde contribuição. No primeiro tempo os tricolores mal vêem a cor da bola, assistem passivamente Riquelme levar o árbitro no bico. Riquelme costuma colocar a bola e a barreira onde quer. Isola a bola.

Dodô está no banco, as câmeras da rede Globo o ignoram, o locutor não tem tempo de falar bobagens, deve narrar os constantes zig-zags dos atacantes do Boca, seu toque de bola refinado, parecem ser eles, e não nós, os verdadeiros artistas da bola. Seus jogadores insistem em não parar, e o comentarista da TV está encantado,  exalta a habilidade, a organização, a inteligência dos jogadores portenhos. Declara sua admiração incondicional. Por pouco não deixa escapar o quanto são belos.

Dodô está no banco, coitado. Com o rosto cheio de platina.

Aqueles pobres torcedores tricolores, tão acostumados à dor, sabem que é questão de tempo, o segundo tempo. E o tempo é implacável. Como diria o poeta, o tempo segue colocando cabelos brancos nas nossas têmporas (por que será que os cabelos brancos começam a surgir pelas têmporas?).

Vem a segunda etapa e nada muda. 12 minutos e o esperado gol surge. Da maneira menos justa possível. Um frangaço. E... é... só resta chamar o Dodô, é melhor do que nada. O banco do Fluminense não tem outra opção ofensiva. A testa de Dodô ainda está levemente inchada. Cheia de parafusos. Ele é a frieza em pessoa. O técnico está tão baratinado que vai tirar o seu jogador favorito. (por que os técnicos de futebol têm tantas preferências que fogem ao senso comum?)

Dodô sofre falta. Quer cobrá-la. Washington aparece sorrateiro. Elemento surpresa. Gol. Dodô parece indiferente mesmo assim.

Dodô deixa Conca próximo ao gol. Conca avança e chuta cruzado. A bola bate num zagueiro brutamonte e engana caprichosamente o goleiro. Gol. Dodô parece indiferente mesmo assim.

Dodô perde dois gols.

Dodô recebe um presente do argentino Palácios, que não joga bem. Dodô não perdoa dessa vez, domina com classe, dribla um beque e toca a pelota com habilidade para os fundo das redes. Ela entra quase mansa. Ele confirma seu estado de paz e serenidade, de uma vez por todas. Um verdadeiro arqueiro Zen. (por que será que os goleiros são chamados de arqueiros?)

                                                

 



Escrito por los inertes às 23h44
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URUBUS

 

Inerte 1 ( Professor Helmold)

 

Hoje eu me perguntei uma coisa. Parece tolice, mas deve ter alguma boa explicação lógica.

Porque voam os urubus ?

Porque ficam horas pairando, sem chegar a lugar algum, apenas divertindo-se com as correntes de ar ?

Aparentemente eles não têm nada a ganhar com isso.

Não estão caçando.

Não estão comendo.

Não estão dormindo.

Não estão fazendo sexo.

O que mais podem aspirar os animais ?

 

Eu havia saído da sauna e deitei numa cadeira ao sol, de óculos escuro.

Dei de cara com um céu de azul intenso, mas muitas nuvens, em várias altitudes.

Na frente de uma grande nuvem baixa, havia -primeiro- um casal de urubus. Dominou o pedaço um bom tempo. Calculei que estivessem a uns mil metros de altura. Não faziam nada, exceto se equilibrar em círculos. Apenas com as asas abertas, como se fossem umas gaivotas negras, ficavam pairando daqui ali, e voltando. Eram pontas negras sobre o fundo branco da nuvem. Fiquei olhando um bom tempo. Estava bonito e eu estava relaxado, me sentindo parte daquilo ali. Então foram aparecendo outros urubus. Geralmente de dois em dois, ou seja, casais. Mas no final voavam todos em formação ensaiada, como um esquadrão da Luftwaffe.

A minha conclusão, a única possível ali no momento para um não biólogo, é de que aquelas aves, os urubus, "brincavam", o que significa portanto que tinham perfeito consentimento da sensação lúdica que uma brincadeira pode conter.

Os urubus brincam, pois.

Detalhe: lá em cima a temperatura pode já beirar os 6º C.

 

Inerte 2 (Inerte Comum)

 

Os urubus voam porque não lhes resta nada mais a fazer. Por não terem nada que lhes atrapalhe, eles voam.

Por que não ficar apenas pairando no ar? 

Imagine que você fosse um urubu e pensasse como um homem.  Você não ficaria pairando no ar o tempo todo e  não teria a desculpa de não ter asas.  Você não ficaria planando o tempo todo por achar que existem coisas mais importantes que isso. O que seria uma grande mentira.

 

             

                                                                 



Escrito por los inertes às 22h17
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MEMÓRIAS JUVENIS  LUSAS

 

Fiquei um bom tempo sentado na mureta, com uma visão privilegiada do mestre no café “A Brasileira”. Algumas meninas de cabelos coloridos e piercing se encostaram ao meu lado, elas estavam muito risonhas conversando com grande alarde. Uma delas foi demonstrar uma passo de dança, talvez de balé moderno ou algo assim, e esbarrou num gringo com aparência nórdica. Ele acenou levando na esportiva. Elas se derramaram de rir da situação e ficaram olhando para mim buscando cumplicidade. Tento me desarmar, dou um sorriso frouxo e digo:

“Sua amiga dança bem.”

Elas concordam e continuam falando um monte de frases inteligíveis apenas para quem domina aquele dialeto pop português de adolescentes de alguma tribo desconhecida. Somente consigo identificar algumas tribos rockeiras clássicas: os punks, os hippies, os metaleiros, os progressivos. (Meu conhecimento de rock se limita até os grunges por gostar muito do Nirvana, Kurt Corbain. Os personagens rockeiros trágicos sempre fizeram bem a sua parte). Não saberia dizer se os góticos são progressivos melancólicos com uma grande influência punk. Talvez os grunges sejam metaleiros um tanto cerebrais que andam com camisas quadriculadas de flanela. Haveria alguma diferença entre os metaleiros e os headbangers? E o que são os indies? E os otakus? E os maggots? Bem, o que importa é que eles se reconheçam. Como costumam dizer, a juventude passa depressa demais. Mas enquanto observava a indumentária daquelas meninas, não conseguia deixar de imaginá-las como personagens de mangás japoneses. Tenho certeza de que seria ridículo se eu perguntasse o que seriam elas. Afinal, também seria ridículo se elas me perguntassem o que eu seria.

Já estava com a perna dormente de tanto ficar por ali parado e resolvi descer da mureta. No entanto, pelo fato de não sentir minha perna e experimentar aquela dor alegre, eu me desequilibrei no salto. E isso aconteceu justamente na hora em que o nórdico retornava. Quase caímos os dois juntos.Ou melhor, se não fosse ele me escorar, eu cairia feio. O cara, um tipo bem corpulento, ficou puto e aí sim, achando que eu era uma espécie de tutor ou o irmão mais velho daquelas meninas neo-punks em flor, por pouco não me deu uma porrada apesar da sua frieza escandinava. Ficou a resmungar uns palavrões dinamarqueses sem se deter. Por alguns instantes eu me transformei num ídolo pop para aquelas meninas. Uma delas apertou entusiasmada a minha mão e não parava de repetir para as outras enquanto ria:

“Gira! Muito Gira!”

Despedi-me e segui o caminho oposto do escandinavo. Certamente nós seríamos um bom assunto para elas durante algum tempo.

 

                                                                                              



Escrito por los inertes às 22h49
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O REDATOR

 

O redator recebeu a ordem de ser o mais isento possível. Corrigia a sua escrita quando se aproximava de alguma presunção. Os fatos falam por si e pronto. Tudo minuciosamente planejado. O redator sabe que é cômodo ignorar aquilo que nos foge à compreensão, e o quanto somos apegados à nossa meia-dúzia de convicções e seus mínimos indícios. O redator recolhia todos os acontecimentos, fazia exercícios de memória, separava as palavras, especialmente os adjetivos e os possessivos. Chegou até onde poderiam restar dúvidas, mas parava quando uma opinião se insinuava, no seu limite. Os fatos falam por si e pronto. Por enquanto é essa a grande regra, apesar de cada palavra trazer impressa a marca de quem a escreve. Assim como a imagem de algo é sempre o olhar de alguém.

 

                    

             

 

               



Escrito por los inertes às 23h23
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KARL

 

O bacalhau e o tinto alentejano chegaram, depois que nos certificamos à exaustão de que não tínhamos qualquer conhecido em comum em Niterói e de algumas tentativas de aproximação mais íntimas de minha parte, sem sucesso. O garçom colocou uma pequena quantidade de vinho em minha taça para o meu parecer. Aromas sutis que eu não consigo identificar. Queria descobrir algum tanino especial naqueles rubis violáceos.

“É um vinho redondo e encorpado...”, brinquei com a minha ignorância em relação a vinhos.

“Você entende de vinhos?” ela se espantou.

“Porra nenhuma!”

Ela sugeriu que sentássemos frente à frente para nos movimentarmos com maior facilidade no jantar. Eu não havia aproveitado sexualmente a minha posição ao lado de Alice. Tudo bem. A gente devia estar com muita fome mesmo, pois quase não falamos mais. Ela bebia aquela segunda rodada de vinho com desenvoltura. Eu só bebi uma taça e meia durante a janta.

“Lisboa é realmente cheia de detalhes”, ela observou após terminar a refeição.

“Demais. Se existe uma cidade barroca, ela está aqui”

Sorte que em Lisboa se come bem por bons preços e ela fez questão de dividir a conta. Pagamos cada um a sua parte e saímos na direção da Avenida da Liberdade. Ela puxou uma canção do Tim Maia e eu acompanhei o coro:

“Quando a gente ama, não pensa em dinheiro, só se quer amar…”

Paramos em frente a uma loja de grife dentre as muitas da Liberdade. Ela disse que achava aquelas lojas de grife caríssimas uma arapuca para otários. Eu tive um estalo e lembrei-me de uma frase de Marx aprendida na época da faculdade.

“É… A desvalorização do mundo humano cresce na mesma proporção da valorização do mundo das coisas.”

Ela perguntou se era de minha autoria. Fui sincero, e disse que se tratava de uma frase do autor de “O Capital”. Ela adorou aquela citação pueril, hoje com inúmeras versões em qualquer livro de auto-ajuda.

“Puxa, Karl Marx! Bárbaro!”, exclamou depois de um soluço. Definitivamente ela não estava em seu juízo perfeito.

Ela se vira com aquela blusa de tecido vaporoso sem o menor pudor e a gente se agarra finalmente. Ficamos grudados num abraço definitivo, cheio de dúvidas. Porém, uma mulher atraente elimina todas as dúvidas.

“Você conhece alguma outra frase de Karl Marx, seu sabichão?”

Impossível me lembrar de alguma outra, naquele ou em qualquer contexto possível.

“Aonde você quer chegar?”, perguntei.

“Adoro esse tipo de banalidade.”

“Que banalidade?”

“Testes de conhecimentos gerais. Tecle Karl Marx no Google e veja o que aparece. Ou, invente Karl Marx. O que você inventa sobre os outros revela muito sobre você.”

“A-hã.”

Fiquei embaraçado. Já ia entregar os pontos ¾ inventar um aforismo instantâneo sobre a luta de classes é tarefa para um showman ¾  quando me veio de súbito novamente:

“A religião é o ópio do povo.”

“Horrível essa. Um cara esperto, nascido e criado em Niterói, sairia com uma melhor”, ela sentenciou rindo.

Já se sabia aonde iríamos parar. O roçar de seus seios eriçados me deixava louco. Meu pau endureceu da maneira mais sólida possível, tudo o que é sólido se desmancha no ar, e fui direto no seu pescoço. Sempre estive certo de que o pescoço era uma das mais poderosas zonas erógenas do corpo humano. Já havia jurisprudência e demos um beijo longo e escandaloso, sob a égide de Calvin Klein.

   

                       



Escrito por los inertes às 11h31
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ACONTECIMENTOS INERTES QUE MARCARAM  2007

 

  • O Rei Juan Carlos, irritado com o discurso do presidente venezuelano Hugo Chaves, proferiu a célebre frase que muitos gostariam de ter dito( não somente ao líder sul-americano como também às suas sogras): “Por qué no te callas?” .
  • O Nova Iguaçu foi rebaixado para a segunda divisão do campeonato carioca.
  • Mônica Veloso, ex-amante do Senador Renan Calheiros, posou nua na Playboy.
  • Paris Hilton foi presa por dirigir embriagada e sem habilitação, passando 23 dias em cana.
  • Um paleontólogo búlgaro chegou a uma conclusão que vai de encontro ao que parecia irrefutável no final de 2006: a galinha veio antes do ovo. Segundo o pesquisador, a galinha é descendente de um mamífero plúmeo que habitava a região do lago Titicaca, o galineos espamathosys. Uma mutação ocorrida durante um período pós-glacial, provavelmente devido a maior incidência de raios infra-vermelhos, fez com que essa espécie passasse a colocar ovos.
  • O estilista Ronaldo Ésper foi preso ao tentar roubar algumas ornamentações fúnebres num cemitério da capital paulistana.  
  • O astro de futebol de botões  Faber Rennó pendurou a palheta e passou a se dedicar à música. Ele pode ser visto soltando a voz com freqüência em memoráveis serestas na aprazível estância mineira de Santa Rita do Passa Quatro .
  • As Spice Girls retornaram, depois de 10 anos, num show durante o desfile da grife Victoria´s Secret.  
  • Luana Piovane declarou em seu blog ser a musa de Caetano Veloso na música “Um Sonho”. Caetano a princípio negou, mas depois voltou atrás em junho, durante um show.
  • Foi descoberto por uma pesquisadora indiana, Yvana Sutra, porque quando estamos com vontade de espirrar e olhamos para o sol ou para uma lâmpada, espirramos com maior facilidade. Segundo a cientista, esse fato ocorre pois as mensagens visuais enviadas para o nosso cérebro passam próximas daquelas enviadas pelo nervo olfativo e pelo trigêmeo, que comandam a contração dos nervos da mucosa nasal, estimulando, assim, o mecanismo do espirro.
  • O mineiro Walnei Almeida Reis, saltou de um helicóptero a 48 metros de altura para a piscina do Clube de Regatas Tietê, em São Paulo. "De cima, a piscina parecia um copo de água", declarou Walnei, que com o seu salto superou o norte-americano Hank Dikson, antigo detentor do recorde.
  • O goleador Dimba do Brasiliense se revoltou após um jogo de seu time em que se sentiu prejudicado pela arbitragem: "O que aconteceu aqui é caso de Polícia Federal, de FMI, voltar pênalti porque torcida está gritando é brincadeira", protestou Dimba, querendo se referir ao FBI, a polícia federal dos Estados Unidos.
  • O blog Manual Complicado de Inércia vai ficar cada vez mais inerte em 2008, por motivos alheios à nossa vontade. Devagar, quase parando.

                   



Escrito por los inertes às 10h57
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O VERÃO E SUAS SURPRESAS

 

Assistia-se a mais uma aula de Geografia no colégio apenas de meninos. Colégio religioso, onde se doutrinava o amor e o temor a Deus sobre todas as coisas. Atenção irrestrita à professorinha, linda moça a despertar os primeiros olhares de lascívia dos adolescentes impúberes. Usava-se o artifício de deixar cair materiais escolares ao chão, a fim de se ter uma melhor vista daquelas pernas torneadas e morenas. Quiçá alcançar a sorte suprema de verificar a cor da calcinha daquela fêmea estonteante.

A mestra, no seu meigo didatismo, discorria sobre a formação dos continentes. Era um dia quente de verão e ela estava especialmente sexy com naquele vestido leve e transparente.

“Vejam bem aqui a evidência no mapa. Nota-se claramente o encaixe perfeito da África com a América do Sul. No princípio era tudo um bloco só, uma imenso continente que se separou graças à ….”

Ela mal teve tempo de terminar a frase, quando um forte barulho, seguido de tremores no solo levou pânico a todos. Os ladrilhos cor de tijolo se desprenderam caprichosamente, revolvendo o chão em todos os cantos em escassos segundos. A cuidadosa professora, a fim de preservar seus alunos acima de tudo, tentava dominar seu próprio pavor. Ela consegue se recompor e orienta a retirada dos meninos daquele ambiente fechado que oferecia tanto risco.

“Nada de pânico, vamos sair ordenadamente. O que ocorreu foi algo muito raro, mas que pode acontecer. Foi uma acomodação do solo, um pequeno terremoto. Vamos sair com calma. ”

Os jovens, num misto de excitação e medo, acorreram ao pátio. Por lá permaneceram até a hora do recreio. Ficaram fascinados com a idéia de terem vivido um terremoto, tal qual ocorria naqueles filmes japoneses de monstros.

Algum tempo depois veio a decepção. Tudo tende ao equilíbrio, ou melhor, o equilíbrio na natureza é instável e houve, de fato, uma acomodação. Uma acomodação de ladrilhos. Não se pode assentar ladrilhos assim tão justos, pois corre-se o risco de haver dilatação da matéria cerâmica com o calor.  O verão continuava a reservar suas surpresas.  

                             



Escrito por los inertes às 20h43
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FILMES NO AVIÃO

 

É comum ficarmos frente à frente com nossos fantasmas quando acordamos no meio da noite. Algum tempo depois, verificamos que a realidade pode ser bem menos cruel. Havia conseguido uma proeza, pois não consigo dormir em aviões. De pronto não pude estimar por quanto tempo fiquei entregue ao sono, sem sonhar.

Acabei por me distrair com aqueles filmes que nunca veria normalmente. Um louco constrói um foguete num silo, ele quer viajar para a estratosfera, a sua esposa compreensiva e linda o apóia incondicionalmente. No grande dia do lançamento, ela pede que ele não se atrase para o almoço. Aquela geringonça alça vôo, mas logo cai num deserto próximo e o sonhador visionário sobrevive com alguns ferimentos. Um pai de família entediado parte para uma aventura extraconjugal. Depois de passar por inúmeros contratempos, inclusive um ataque de priapismo que o faz parar no hospital por tomar uma dose exagerada de remédio para disfunção erétil, ele percebe que a sua mulher é o único e grande amor de sua vida. Uma senhora ao meu lado chora com a cena final. O seu marido ronca de maneira descompassada. As pessoas acabam se emocionando por bem pouco.  Uma jovem inquieta mantém-se em pé, eventualmente circula pelo corredor. As pessoas agem de diversas formas enquanto voam. E pensar que tem gente que consegue até transar em banheiros de avião.

 

                         



Escrito por los inertes às 22h54
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REGRAS DE ETIQUETAS

 

Como se portar em um grupo festivo sem conhecer ninguém

 

Você está meio perdido e encontra um velho e bom amigo. Ele te convida para almoçar ali perto. Por que não? Você se anima por um motivo qualquer. Está de olho em alguém do círculo de amizades do sujeito, por exemplo. Lá vão vocês em nome da velha e boa amizade. Chegam ao restaurante, por sinal um restaurante bem festivo. O seu amigo acabou de cometer uma gafe bem séria, não comentou que você iria reunir-se com pessoas que nunca viu na vida para comemorar um aniversário. Ele não fez por mal, nunca vai perder esse defeito de ser um completo distraído, e conhecer novas pessoas é sempre enriquecedor. O seu velho e bom amigo, antes de conseguir apresentá-lo aos demais, é praticamente obrigado a sentar-se num lugar reservado. A você resta uma única cadeira vaga do lado oposto da mesa, ao lado de um senhor sério, que por sua vez está posicionado defronte a uma mulher um tanto alterada, muito sexy por sinal.  Ela fala pelos cotovelos. Defronte a você, encontra-se um rapaz muito risonho, que recebe uns afagos da mulher. A primeira regra nessas circunstâncias é: procure entender o mais rápido possível o temperamento dessas pessoas e não faça interferências ousadas. O garçom já estava a postos e você escolhe logo um filé à parmegiana no menu, para não perder tempo. A mulher continua brigando com o homem sério. O homem sério filosofa que as mulheres gostam de nos fazer pensar que são capazes de tudo. A mulher, já meio alta, garante que ele merece um belo par de chifres. O rapaz parou de rir tanto, não tira os olhos de você. O comportamento humano até pode ser previsível dentro dos limites da ética do cotidiano, mas muitos são traídos pelo seu estado de ânimo. Enfim, o destino o levou até ali, você é tímido o suficiente para não se indispor com alguém que não conheça. Se o homem sério lhe pede uma opinião sobre o que ele filosofou, se a mulher fica te olhando com jeito de quem não leva desaforo para casa e o rapaz na sua frente enche seu copo de cerveja, só lhe resta dar um sorriso discreto, com o cuidado de não ficar mais admirando o decote da mulher. Não deixe ninguém sem respostas, essa é outra regra de etiqueta fundamental. Fale algo que não implique em tomar partido de alguém. Diga que o blefe faz parte do jogo. 

 

             



Escrito por los inertes às 09h39
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O LUTADOR

 

O lutador de tele-catch mexicano caiu de mau jeito, após se lançar contra o adversário numa tesoura voadora fora do script. Arriba México! Aquele lutador era inexperiente, tinha apenas boas noções de truques acrobáticos. Ele nasceu para isso, era  filho e neto de competidores do bem, os mais magros e atléticos, os que saem das contendas nos braços do povo. Aquele lutador de tele-catch pouco sabia sobre como lidar com farsas. Era um atleta do tipo mascarado, e o público gosta de heróis com fantasias, de protagonistas de capa e espada a desferir seus golpes elegantes e limpos. Um vingador nato. Mas o pobre paladino da justiça teve uma contusão na região lombar difícil de ser disfarçada. Falta de sorte, era a sua estréia substituindo um outro sob a máscara. O oponente asqueroso, declarado vencedor por nocaute, ameaça fazer picadinho do herói e é contido pelo árbitro e por auxiliares preocupados que invadem o ringue. Aproveitam e aplicam-lhe alguns sopapos. O espetáculo tem que continuar e o bem há de ser resgatado, não perdem por esperar os falastrões. O povo vaia com entusiasmo.

                                       



Escrito por los inertes às 10h12
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RUIVA DE GRIFE

 

Não adianta a calça lhe cair bem se não está confortável, se atrapalha a sua digestão, se não há outra saída que não seja desabotoá-la enquanto você está sentado. Orlando detesta lojas de roupas com músicas pop e vendedores dançantes. O seu salário não estava de todo ruim, ele já havia passado por algumas dificuldades financeiras na vida, o que marcou em seu subconsciente a necessidade compulsiva de poupar. Decidiu entrar em uma loja, finalmente, pois a calça lhe parecia a ideal.  A vida passa. De que adianta a vida passar, com todas as suas promessas, se a pessoa não tem uma calça decente que a faça se sentir segura? Pode parecer tudo muito fútil, mas é a insegurança que domina o nosso subconsciente e o mercado se nutre das fraquezas humanas.

Ela se mostrou por demais solícita, uma linda ruiva, cujo único objetivo era lhe mostrar o melhor que a vida tinha a oferecer. Orlando sempre abominou coisas como a mídia e a moda, e a moça se apresentou prontamente risonha. Rita era o seu nome. Ofereceu-se para guardar o seu livro e o guarda-chuva. Orlando hesitou um pouco antes de entregá-los. A vida passa, afinal.

Os momentos em que estamos num provador são dos mais solitários. Naquele cubículo ponderamos sobre nossos defeitos, nos damos conta do quanto o tempo é irreversível, fazemos um balanço de nossa condição social, analisamos o Custo X Benefício, descobrimos até como somos de costas em jogos de espelho. O motivo que nos leva a um provador daquele pode ser mais ou menos sério. Orlando pensava na estratégia das lojas que selecionam essas mulheres cativantes para atrair clientes. Uma linda menina cheia de vigor usada num mercado absurdamente competitivo. Era um especialista em teorias conspiratórias. Foi quando a Rita, do outro lado da porta, perguntou como ficou, depois de um tempo mais do que suficiente para o esboço de alguma decisão. Ela estava pronta para ajudá-lo a descobrir um mundo sadio e belo, e o Orlando pagaria um preço justo, liberado para enfrentar o seu próximo problema.

As pernas de Orlando são curtas e seu abdômen, volumoso. Não haveria calça que o vestisse como uma luva, era uma questão anatômica e as linhas de produção ignoram as exceções. Voltando de seus pensamentos, já conformado com aquela escolha pois já conhece os seus limites, o Orlando abre a porta e depara-se com a sua ruiva de grife. Ela foi pega em flagrante. Uma fatalidade, pois a Ritinha adorava dançar e aquela era a sua música favorita. Foi o suficiente para o Orlando desistir daquele item de consumo supérfluo. Ele fecha a porta num rompante e sem maiores explicações, enquanto a moça pergunta se não gostaria de experimentar algum outro artigo da nova coleção. Ele não quer ouvir mais nada. Exige rapidez na devolução dos seus pertences. Retira-se azedo, inventariando os problemas do mundo.   

                                   



Escrito por los inertes às 09h26
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CONSOLO

 

O torpor tomava conta de mim. Culpa da cerveja e do relaxamento depois que os nervos ficam à flor da pele. Estava mais tranqüilo agora, o meu amigo estava exaltado, reclamava sem parar. Queixava-se de medidas provisórias e dos conchavos do Congresso Nacional. Tudo bem, eu concordo com ele, mas o torpor era mais forte, não conseguia acompanhar nenhum raciocínio um pouco mais complexo. Ao redor só se ouvia o burburinho, as pessoas comentando o passado recente. Aquilo se transformava numa sinfonia monocórdica, com solo de um rouco exaltado, cheio de razão.

“Você já ouviu a expressão galgar parâmetros?”, perguntei, não sei porque.

 “Cara, você está desvirtuando o assunto”, pelo menos ele sorriu, “Por falar em desvirtuar, aquela mulher ali está te dando umas olhadas...”

“Ela deve ter enxergado em mim um vencedor.”

Ele era realmente meu amigo. Achava graça de qualquer bobagem que eu falava, apesar de visivelmente puto. Foi ele agora quem mudou de assunto, apesar de estar de olho na tal moçoila que supostamente me dava bola.

“Quem veio com essa pérola de galgar parâmetros?”

“Um técnico. Ele disse: ainda precisamos galgar alguns parâmetros”

Ele ficou sério. Acho que meu torpor era contagioso. Ficamos de braços cruzados observando os fatos. O dia estava quente, abafado. Ele tinha seus problemas, e eu, os meus. Nem todos são iguais.

Pemanecemos em silêncio por algum tempo, até que o burburinho começou a aumentar. Ele, então, não se conteve:

“Sabe, só tenho duas certezas na vida. A primeira é que algum dia vou morrer”, deu uma pausa olhando para o além.

“Até aí, morreu Tancredo Neves”, redargúi.

“Só tenho duas certezas na vida”, repetiu, “a primeira é que um dia vou morrer, e a segunda é que sempre torcerei pelo mesmo time”, desabafou.

Aquele cara rouco e exaltado estava cheio de razão. O seu time estava levando uma goleada do meu em pleno Maracanã, ainda no intervalo. É duro suportar tal infortúnio bem debaixo dos olhos.

“Acho que a mulher  está olhando é para você. Ela quer o consolo de alguém do mesmo time, não de mim”, procurei animá-lo.

As equipes estavam prontas para o segundo tempo. O meu amigo, num impulso, desceu e foi falar com ela. Acho que galgará aquele parâmetro.

 

 

                              

 

      



Escrito por los inertes às 09h50
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