UM PEQUENO DESVIO NO ROTEIRO, TUDO A PERDER
(Existia um cinema na Praia de Botafogo, Rio, onde passavam umas peças teatrais de safadeza. A casa de espetáculos teve vida curta, dando lugar a uma igreja evangélica em seguida)

When I fall in love, uma cãibra, dizem ser falta de potássio no organismo, onde encontrar água de coco ou bananas ou comprimidos efervescentes de cloreto de potássio àquela hora? Minha partner, a estonteante Judith, achou que eu queria me fazer de engraçado e sair do script, justo na cena do When I fall in love. O grito que adveio da cãibra atraiu todo o pessoal da trupe nos bastidores. Não existiam cortinas a serem baixadas. O diretor mandou o Pacheco entrar em cena. O Pacheco, que fazia o papel de marido traído, abriu a porta. Tentaram me carregar, eu falei que poderia deixar a cama sozinho.
Judith era verdadeiramente a única atriz e sabia, portanto, improvisar. Pôs-se a tirar a roupa, e empurrou o Pacheco para a cama. O Pacheco era meio obtuso, só sabia fazer o que estava no script. Ela fez o que pôde, mas ele brochou.
Judith, a estrela do espetáculo, começou a fazer um strip-tease às avessas. Uma deixa cômica. Tudo pela arte e pelo respeito ao público. O grupo de jovens bêbados que veio por conta de uma despedida de solteiro começou a apupar. Ela convidou alguém na platéia para substituir o Pacheco, pois o espetáculo tem que continuar. Mas, é claro, ninguém se habilitou, e mandaram Judith à merda, pois pagaram para ver, e não fazer, sacanagem. Ela se defendeu dizendo que não tinha culpa se o Pacheco estava num mau dia. Eu, mal recuperado da cãibra, fui intimado pelo diretor a retornar, mas não estava nas minhas melhores condições, e acabei brochando também. A Judith fez o que estava ao seu alcance para me levantar. Tratei de dar as minhas explicações ao público, pois nada é pior do que ter sua reputação colocada em cheque. Garanti que foi a primeira vez. Aquilo poderia acontecer com qualquer um, até com alguém como eu, que já tinha sido atração num espetáculo de variedades em que fazia o papel de “O Pensador” de Rodin, e conseguia ejacular sem utilizar as mãos. A platéia fez ameaças e exigiu o dinheiro de volta. Uma grande encrenca nos esperava, pois metade do borderô já havia sido entregue ao fiscal da prefeitura.
Quando já nos preparávamos para um entendimento com a platéia (não eram muitos), o espectador dos óculos escuros falou algo no seu comunicador. Sob seu comando a polícia invadiu aquele teatro mambembe onde passavam peças pornográficas. Um ônibus da polícia já esperava pela trupe, e pela platéia também, considerada cúmplice daquele atentado aos bons costumes.
Escrito por los inertes às 18h47
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