Ora Blogs.
A mulher tornou público seu diário. Adolescente, ficava à procura de recortes de revistas com a palavra desejada, colocava fotos de seus artistas favoritos, revelava segredos, escrevia cifrado. Anos depois, apenas anotava na agenda as listas de compras, colava não mais retratos, mas saldos bancários, o receituário do filho, enumerava os compromissos profissionais. Tudo muito sucinto e preciso. Procurava o seu tempo e agora, decidiu, o tempo perdido inclusive. E foi numa dessas que uma amiga lhe disse entusiasmada que escrevia um blog. Ela, boa em trocadilhos, não se interessou a princípio. Achou, logo de cara, cafona o diário eletrônico da sua amiga e deu uma desculpa.
“Putz, acho que teria um blogueio mental”
Depois, letrada que era e secretária bilíngüe, começou a ter idéias. Prática como ela só, começou a imaginar as possibilidades. Não podia perder tempo com essas bobagens, tinha que sustentar o filho de 8 anos, sua prioridade cega, seus exageros maternais de primeira e única viagem, mas fez perguntas de praxe.
“ ... é fácil fazer um blog?”
A amiga entusiasmadíssima porque havia conquistado um namorado graças a troca de comentários no blog, disse que era ridículo, ofereceu-se para ensiná-la. Aliás, se ela quisesse, fazia um ali na hora.
A outra, depois de um cálice de vinho e com o filho dormindo, já meio achando que qualquer prazer a divertiria, foi adiante:
“ Porquoi pas?”
De fato era muito fácil. Ela tinha jeito com computadores e a amiga era verdadeiramente uma expert.
Na semana seguinte, lá estava com a receita de bolo para editar anotada na agenda, logo abaixo do orçamento de um armário embutido com escrivaninha para o filho. Esperou o garoto dormir e abriu o vinho tinto demi-bouteille que comprou para ocasião. Mãos à obra:
“ Nunca pensei em tornar público um diário...”, blogueio mental. E foi anotando tudo que a fazia sentir-se insegura, colocou frases sublinhadas em livros. Lembrou-se de Eliot: escrever é uma forma de livrar-se de seus tormentos (havia acabado de ver um filme sobre Vinicius de Moraes, onde Ferreira Gullar o citava). E seguiu adiante, tomando algumas precauções, é claro. Dar uma lidinha básica para cortar os excessos. Uma podada, como ensina Garcia Marques.
No dia em que recebeu o primeiro comentário no blog, de alguém que não conhecia, exultou.
“Putz, todo blogueiro iniciante tem sede de comentários”, pensou.
Escrito por los inertes às 22h33
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