MELHOR DO QUE NADA
O bloco carnavalesco passou, ou fiquei. Uns tipos circenses não estavam nem aí. Querem treinar o movimento sincronizado intuitivo. Estavam ali exibindo-se também, pois quem percorria Ipanema naquele momento ou exibia-se ou estava perdido, mas qualquer juízo seria injusto naquele momento. Havia famílias, amantes, pivetes cheirando cola, vendedores de bugigangas carnavalescas, policiais, os músicos da banda. Melhor do que nada. Fico com inveja do trabalho dos músicos da banda e de olho nas meninas que encaram a fila do banheiro no posto 9.
E a irreverência carnavalesca? O posto 9, aquele das palmas para o por do sol. Entardecer magnífico por sinal. Esperava pelo aplauso. Fiquei a postos. Se o aplauso não existisse era porque a tradição não foi mantida. Estou sempre pronto a escutar coisas como as badaladas do Big Ben.
Deveria olhar é com uma cara de sem-vergonha para as meninas, isso sim. E a irreverência carnavalesca? Voltei à Av. Vieira Souto, o bloco havia deixado muitos outros pelo caminho. Ainda havia a reverberação da banda e o espírito carnavalesco residual. Dos outros.
Um garotão cantava uma mulher de seus trinta e poucos anos de um grupo. Ela o repeliu, novo demais. Hesitei em apresentar-me imediatamente. Se quer alguém mais velho, sou o que procura. Vacilei e ali fiquei, numa mistura de intimidação e respeito. Intimidação por causa de seu corpo esguio, seus olhos azuis acesos, seu rebolado perfeito, sua estirpe de Ipanema dos oitenta, setenta talvez. Respeito, porque era de alto nível, estilosa despojada, devia ser daquelas que deixam você no chinelo quando percebe seus truques sujos. Isso se agravou pelo fato dela estar no meio de suas amigas, tornava-se necessária uma aproximação forçada, o que seria difícil, pois teria que demonstrar animação instantânea para movimentar-me com desenvoltura e furar o bloqueio.
Não sei se as mulheres usam o artifício de colocar a mais gostosa do grupo para atrair ao seu meio uma macho que serviria bem à outra de seu cardume. As mulheres têm muitos truques gregários. Qualquer juízo seria injusto naquele momento. As mulheres têm é mais vocação para a diversão do que os homens. Julgo que a maioria das mulheres contenta-se apenas em ficar dançando sem segundas intenções. A mais gostosa do grupo ficava rebolando ao meu lado fazendo umas poses insuspeitas. Sabia da sua importância carnavalesca. Foi uma injeção de ânimo, eu me mexia embalado pelos ecos do Simpatia é Quase Amor tentando entrar em sincronia com ela, que passou de isca a alvo. E é assim que se vai perdendo o controle da situação. Um gringo francês acercou-se da balzaca, e ela falava bem inglês e até arranhava um francês.
Chegou um play-boy sarado na mais gostosa do grupo e soltou o xaveco lançando mão, com direito a tentativa de beijo forçado, de tudo o que sua condição de bêbado lhe dava direito.
“Não dá... Estou esperando meu namorado.”
Mesmo bêbado, o rapaz saiu sem graça e contrariado, puxado pelo amigo que invocava a dinâmica universal. Certamente o organismo libera coisas como endorfinas quando sentimos que temos boas perspectivas. Aparentemente eu fora aceito pelo grupo. Além da mais gostosa, uma outra dava as suas gingadas ao meu lado e faziam coreografias em que eu podia fazer parte discretissimamente. As duas revezavam-se. Mesmo fora do timing, graças as tais endorfinas, arrisquei:
“É velha essa. Essa de que o namorado vai chegar é mais velha do que andar pra frente.”
Ela, sem parar de sambar fininho, respondeu com simpatia, em respeito a minha condição de gente boa solitário que não fica enchendo o saco direto:
“É verdade mesmo. Ele vem ali”
O surfista chegou, lascou-lhe um beijão na boca, disse que foi muito difícil estacionar. Realmente, eu podia concordar com ele, mas o cardume saiu imediatamente, O Simpantia é Quase Amor ainda poderia ser alcançado, sem grande esforço. Ele evoluía bem mais lento agora. As doses de endorfina não foram suficientes para decidir alcançá-lo. As endorfinas estimularam a fome. Foi aquele o exato momento da capitulação. Onde está o espírito carnavalesco? Será que ainda tenho qualquer chance? Tentei abstrair-me do carnaval. Daí para bater em retirada, cheio de pensamentos voltados para aspectos práticos, foi um pulo. Existem outras maneiras de sermos felizes. A capitulação sugere infelicidade?. É impossível ser feliz sozinho? Tenho que me poupar pois amanhã tem mais. Mas, o que?
O dia já estava perdido, só me restava o consolo do que serviu. O por do sol digno de aplausos, pelo menos. Muito mais que isso? Melhor do que Nada, o nome do bloco de carnaval que pensei em fundar no próximo ano. Junto com outros inertes do mesmo naipe.

Escrito por los inertes às 17h33
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