HISTÓRIA PARA BOI DORMIR

 

Foi durante a primavera, numa festa onde seria eleita a Rainha da Primavera do clube Democráticos de São Gonçalo. Teria que fazer uma reportagem para o Jornal de Bairro.

Dentre as morenas apetecíveis, as gordinhas risonhas, as engraçadinhas, as anoréxicas, as que precisam evoluir melhor, as sacaninhas, as tímidas demais, aquela visão angelical se aproximou oferecendo uma rifa.

“Compra para ajudar a comunidade. Por favor.”

Não tinha como recusar. Era como uma ordem. Os homens são uns tolos e muito susceptíveis a esses tipos de apelos. Comprei logo três e entrei no clube. Cheguei cedo demais. Ruídos de comunicação acontecem e só me restou beber uma cerveja e buscar um ponto estratégico naquele salão que já começava a encher.

Depois de muita impaciência, o apresentador surge ¾ uma verdadeira caricatura ambulante ¾ e fala vários gracejos com toda a sua dicção peculiar, apresenta os jurados e, depois que o público começou a ensaiar umas vaias, chama ao palco todas as candidatas. Vestidas com maiôs discretos, fabricados pelo patrocinador do concurso, elas se acertavam em fila indiana, poses ensaiadas, sorrisos forçados, buscando desajeitadas a sincronização, depois de uma reverência ao público que aplaudia. Cada uma das candidatas tinha a sua torcida organizada.

O apresentador pediu inutilmente silêncio à platéia e chamou a primeira candidata. Descreveu suas medidas, relatou seus anseios, seus gostos, resumiu suas habilidades e hobbies. A menina percorria o palco sem muito estilo, sorridente, sua torcida se manifestava com assobios, gritavam seu nome, ela fazia uns dengos, espocavam alguns flashes e o locutor fazia observações babacas.

“Os nossos jurados estão com um baita problema hoje. Quem será a mais bela dentre as belas? Eu não queria estar na pele dos jurados. Sinceramente....”

A moça que me vendeu a rifa, uma das candidatas, era muito melhor do que imaginei. Ela decolou num sorriso que ficou muito bem encaixado na sua coreografia, uma virada perfeita, seus cabelos eram os mais bem desalinhados, o seu olhar, o mais incisivo e insinuante, os braços, leves, de uma leveza que começava nas suas costas, na sua envergadura frágil, e ia espalhando-se por todo o ambiente. Ela foi a última a desfilar, fiquei com a respiração suspensa e a platéia silenciosa.

As candidatas perfilaram-se com a mesma pose ensaiada, algumas com um ar de inveja. As luzes do palco improvisado apagaram-se.

“ Uma pausa de quinze minutos para a decisão final dos jurados. Fiquem agora com o grupo Boêmios da Vila, que irá nos brindar com algumas pérolas musicais.”

O grupo de chorinho era muito fraco, infelizmente tocou bem mais do que quinze minutos.

O apresentador retornou e tentou criar o suspense,  fazendo comercial dos patrocinadores coadjuvantes, agradecendo a quem prestou ajuda. O mestre de cerimônias tentava imitar o ritmo e ritual clássico dos apresentadores dos concursos de misses, com toda a sua dicção. Porém começou ao estilo daqueles locutores de supermercado que anunciam as promoções, até gesticular feito um pregador para suas ovelhas, como quem ordena rendição à fúria dos céus. Exaltava as qualidades do presidente do clube Democráticos, um exemplo para a comunidade, ou para a humanidade.

Tudo pouco importava, a moça da rifa foi eleita a Princesa da Primavera, o que correspondia à segunda colocação. Ganhou apenas o cetro e a coroa modesta. Desfilou meio sem graça. Mas ela ficava ainda mais bonita contrariada, e sabia como se aproveitar disso. A outra, anunciada em seguida, grande vencedora e Rainha, um tanto roliça, recebeu o prêmio maior, um carro zero quilômetro popular, além de um cheque razoável.

Vieram os cumprimentos, beijinhos, a passagem da faixa pela ganhadora do ano anterior, dedicatórias, desfile choroso, etc. Tirei as fotos necessárias. A entrega das chaves, carro novinho em folha, foi feita pelo filho do prefeito da cidade anunciado pelo apresentador. Reparei que A Rainha da Primavera tinha o mesmo sobrenome do rapaz que entregou o prêmio.

Mas ninguém contava com a besta humana. O sujeito era um brutamontes irascível. Ele não queria muita conversa, e invadiu o palco com a disposição de um javali faminto, jogou-se em cima dos jurados às bordoadas, foi uma dureza conter o homem. O apresentador foi o primeiro a ser atacado e, portanto, o mais desprotegido.

“Calma papai! Calma, pelo amor de Deus!”, gritava a moça da rifa.

Consegui fugir a tempo.

 



Escrito por los inertes às 21h35
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