O ECO DE FRASES FEITAS
Para quem escreve ou lê, não há nada mais compensador do que o deleite de um bom aforismo. Um aforismo bem encaixado salva qualquer texto e nos acompanha, em alguns casos, para a vida toda. São aquelas frases marcantes que ficam sublinhadas, que gostamos de copiar nas cartas, que falamos na hora exata para impressionar uma paixão, que qualquer personalidade ou político adora proferir, muitas vezes de forma indevida ou na hora errada. Oscar Wilde era um mestre. Havia até um livrinho, vendido nas bancas, onde eram compilados os seus aforismos mais famosos.
A respeito dos aforismos, Umberto Eco escreveu um ótimo ensaio, ou melhor, fez uma ótima conferência na Universidade de Bolonha que ficou registrada no seu livro “Ensaios sobre Literatura” da editora Record. O seu título é “Wilde, paradoxo e aforismo”.
Vou tentar resumir ao máximo o que Eco colocou, mesmo porque vale à pena comprar esse livro. No mínimo vocês aumentarão bastante seu estoque de aforismos.
Segundo Eco, existem aforismos e paradoxos. Um aforismo seria “uma máxima que pretende ser reconhecida como verdadeira, embora pretenda parecer arguta”. Mais adiante, colocando de forma mais clara, “o aforismo exprime de modo brilhante um lugar comum”. Já o paradoxo é algo mais sutil e perspicaz. Ele se apresenta como “máxima prima falsie que, somente depois de uma madura reflexão, parece destinada a exprimir aquilo que o autor considera como verdadeira”.
Mesmo entre os aforismos existe uma outra subdivisão: os aforismos propriamente ditos, que seriam os aforismos honestos, bem construídos e os aforismos “cancrizáveis”. Cuidado com os últimos, portanto. Eles podem ser facilmente confundidos com os paradoxos. Mas o nosso herói, o bom Eco, nos ensinou um macete para separar o joio do trigo. Se não vejamos:
O aforismo cancrizável é “uma máxima que, embora pareça espirituosa, não se preocupa com o fato de que seu oposto seja igualmente verdadeiro. O paradoxo é inversão real da perspectiva comum que representa um mundo inaceitável, provoca resistência, recusa e, todavia, se faz um esforço para entendê-lo, produz conhecimento”. Portanto a forma mais simples de distinguir um aforismo cancrizável de um paradoxo porreta seria inverter a frase. Se com esta inversão a frase continuar parecendo verdadeira, você caiu no conto do aforismo cancrizável.
Bem, chega de teorias e vamos a exemplos. Extrairei poucos, mesmo porque esse blog tem limite de caracteres.
Nada é mais insondável que a superficialidade de uma mulher.
Gostaram da frase? Ela é bem interessante e dita numa mesa de bar, depois de duas ou três cervejas, até que faria sucesso. Mas, experimentem inverter o sentido da frase:
Nada é mais superficial que a insondabilidade de uma mulher.
Particularmente gostei de ambas as frases, embora a inversão tivesse gerado uma máxima igualmente charmosa. Achei o Eco muito rigoroso ao censurar este aforismo cancrizável.
Bem, finalmente, eis um exemplo de uma paradoxo citado por Eco:
Se pretendeis derrubar os monumentos, poupai os pedestais . Sempre podem servir.
De fato é impossível de ser invertido. Não achei tão paradoxal assim, mas é bem elegante e reflexivo.
Ah! Já sei o que estão pensando. Faltou o exemplo de um aforismo não cancrizável. Lá vai então:
O álcool é um líquido que mata os vivos e conserva os mortos.

Escrito por los inertes às 07h50
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