A SEGUNDA
Achei que poderia resolver a questão trocando de identidade, mudei o timbre da voz, adotei um título nobiliárquico. Ela é movida a fantasias, tem fascínio por impostores. Começou a soltar gemidos despropositados quando nos seguramos divertidos. Para mim era como se estivesse numa canoa que descia, um tanto desgovernada, um rio turbulento, acidentado, preticosu. A canoa virava e desvirava, girava nas corredeiras. Demorávamos a reaparecer nas quedas d’água mais abruptas, nas espirais de tempo e espuma. Estávamos seguros, no entanto. Tudo acontecia sem medo.
Blem! Outra possibilidade: a cama é de ferro, depois de 4 ou 5 músicas do Frank Sinatra. Acho que fui eu quem deu aquela pancada, meio anestesiado, meio tonto. Não conseguia controlar meus movimentos. O suor pingava. Não havia como continuar pois começamos a rir. A segunda tarda e falha.
Pouco tempo depois ela sorri compreensiva. A pancada na cama agora doía. Tudo voltara ao normal. Ela me cumulava de olhares que poderiam derreter chocolates, estávamos lambuzados, e reclamou do meu ar de indiferença. Retruquei que não estava indiferente, mas apenas cansado. Sei que está prestes a me fazer o pedido.
“Coça as minhas costas?”

Desenho Edward Hopper