O RAPAZ CAMALEÃO
O rapaz camaleão era um ícone da juventude arrojada. No entanto, a imensa maioria da população duvidava da sua existência. Mantido em sigilo sob a custódia do Estado, ele foi fruto de uma pesquisa que violava tratados internacionais. Conseguiram alterar a exata região cerebral que controla a regeneração das células. Descobriram como atuar na aceleração direcionada. O mutante foi gerado in vitro depois de várias tentativas.
Os adeptos das corridas eram os que mais desconfiavam da existência do rapaz camaleão. A sociedade daqueles tempos dividia-se em grupos fechados, que partilhavam interesses e idéias peculiares. Reconheciam-se em comunidades de nomes sugestivos: os colecionadores de miniaturas, os dançarinos compulsivos, os arautos da higiene, os mergulhadores notáveis, os imitadores de animais, os faunos sacanas, os observadores de insetos, os lenhadores nudistas, os ginetes emburrados, entre tantos. A juventude arrojada afirmava que havia provas incontestáveis da existência do experimento. Com o tempo elas não apareciam, e os arrojados, quando perdiam o viço e a boa vontade da juventude, iam procurar outros caminhos. As corridas os fascinavam em particular, era quase uma convenção social: após o desalento, as corridas.
O rapaz camaleão passou a ser colocado em segundo plano pelos inspetores do laboratório estatal. O processo de regeneração celular instantânea só é eficaz quando a região cerebral responsável pelo start está em plena vitalidade. Mas mantê-la assim é a derradeira fronteira do conhecimento, por conta do implacável envelhecimento celular. Além disso, os líderes decidiram-se por um corte geral de verbas. O Estado andava em crise, e uma boa usurpação de territórios poderia ser salutar, segundo eles. Invasões são muito onerosas.
O rapaz camaleão não reconhecia a liberdade. Após muitos descuidos passou a ter acesso a algumas janelas graças a uma enfermeira simpatizante da juventude arrojada. Ela conquistou sua confiança, ofereceu-lhe carinho, despertou no mutante a sua natureza humana e aproveitou-se da sua ingenuidade. Colocou à disposição uma chance de liberdade mas, ardilosa, conseguiu convencê-lo de que deveria prestar um pequeno favor aos seus benfeitores. O rapaz camaleão logrou fugir com algumas dificuldades. Nada que não pudesse ser resolvido com razoáveis propinas. Conseguiu levar consigo uma das ampolas de células, auxiliado por integrantes da juventude arrojada. Dirigiram-se imediatamente para a arena das corridas.
A saída de uma corrida era muito tumultuada, uma multidão de aficionados jorrava dos portões da arena monumental. Os jovens abnegados fizeram um bom trabalho: conseguiram convencer muitas daquelas pessoas de meia-idade formadoras de opinião a esperar um pouco. Mudariam o mundo, agora sim.
O rapaz camaleão postou-se estrategicamente em cima da passarela de pedestres. Solicitaram a presença de alguns voluntários dentre os aficionados por corridas para acompanhá-lo de perto. Sem qualquer preparação, injetou todo aquele suco de células em seu braço. Esperou, esperou, fez caretas, continuou ali, o tempo passou rapidamente, tentaram manter a expectativa e nada, nada de mutação.
Primeiro foram os aficionados por corridas a dispersarem-se silenciosos e cansados. Eles devem acordar cedo, pois são um dos pilares do Estado, geralmente trabalham na contabilidade. Por mais que se esforçasse, o herói não se transmutava. Na verdade, não sabia se algo mais deveria ser feito. O tempo passava e os arrojados experimentavam novamente uma imensa frustração. Muitos renunciaram ao grupo ali mesmo, de forma prematura e intempestiva com o frio que a noite amplificava. Até que o último, o mais viçoso e com maior boa-vontade virou-se e o abandonou desolado, perdendo-se na escuridão que engolia a passarela. Ficou ressentido com o coitado. O conformismo não é próprio da juventude.
No abandono, sem saber o que fazer, o rapaz camaleão seguiu seu caminho solitário, cheio de esperanças e ilusões. Encontraria alguém para acolhê-lo em algum canto. Não poderiam acusá-lo de nada, a não ser de existir. Era um revolucionário sem sabê-lo. Ele vagava sem rumo, apenas sua sombra o acompanhava. Uma sombra que assumia a forma de um símio gigante desapercebidamente. Bicho troncudo e desengonçado, um primata completo. Não haveria mais como ser reconhecido na sua forma primitiva. Descuidado, ele prosseguiu até o amanhecer.
A população ficou em pânico com aquela fera à solta. Numa delicada operação que contou com o apoio de forças armadas, aquele gorila ameaçador foi capturado. O rapaz camaleão passou o resto de seus dias num jardim zoológico.

Escrito por los inertes às 09h16
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