ÚLTIMO DIA ÚTIL
Um burocrata resolveu mudar as regras do jogo, pelo menos no que estava ao seu alcance. Como sabia onde pisava, foi subindo na hierarquia burocrática. Ele manipulava as palavras, fazendo-as parecer mais complicadas, e os outros temiam demonstrar ignorância. É sempre tão mais fácil fingir que entendeu. É sempre tão mais fácil disfarçar seus pontos fracos. Dessa forma ampliou o seu raio de ação. Sabia reconhecer quais pessoas deveria influenciar, não necessariamente as mais importantes. Hábil articulador, barrava transformações quando estas pareciam ser contrárias aos seus interesses. Ele vinha com o prognóstico infalível: a máquina burocrática poderá emperrar. Além disso, era mestre na criação de mudanças inócuas. Afinal, que diferença poderia fazer: normas inúteis não são apenas normas inúteis? Ponham-se de lado as disposições contrárias. Ganhou alguma grana. Bem, na verdade um reino deve ser tão mais corrupto quanto é o tamanho de sua burocracia.
O burocrata sorri com a sensação do dever cumprido. Uma chuva de papel picado dos escritórios cai na Avenida. Ultimo dia útil do ano.

Escrito por los inertes às 14h28
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