ENTREVISTA

 

Ele estava nos seus braços, o entrevistado.

Aproveitou e pediu à governanta para ir ao banheiro. Claro, estava tensa, desamparada seria a palavra certa. Ela se empina toda, busca confiança e suspira. Examina marcas de expressão quase invisíveis. Talvez não estivesse vestida adequadamente. Graças à dieta, voltou a usar aquele vestido. Não sabia se deveria improvisar, o editor-chefe lhe dera uma lista enorme de perguntas. Bateram na porta. Os modos da governanta eram pouco amistosos. Deu a última ajeitada no cabelo e abriu a porta forçando um sorriso de desculpas. 

Foi encaminhada ao quarto sombrio e simples.  O falsário, que então vivia no exílio, parecia incrivelmente bem conservado para os seus setenta anos. A moça se aproximou, depois de agradecer à governanta, que não parava de praguejar retornando aos seus afazeres. O falsário lhe pediu que se sentasse na cadeira próxima à cama onde estava recostado a ler um livro e, impaciente e um tanto ríspido, sugeriu:

“Vamos acabar logo com isso.”

Ali estava uma grande entrevista, quase inacessível. Foi somente quando obteve garantias, e uma considerável soma de dinheiro, que concordou. Ninguém consegue botar as mãos nele.

Havia uma ordem a ser seguida que poderia ser alterada de acordo com as respostas do entrevistado. Não devemos arrancar a verdade de imediato, ela deve afluir nos atos falhos, ela deve tornar-se irreversível, mesmo despistada, clara nas entrelinhas, lógica se negada. O entrevistado, porém, estava acostumado às sutilezas da arte e aos inquéritos policiais.

Ela, então, ainda insegura, começou:

“O que o senhor achou do documentário O Abnegado Dr. Gachet ?”, começou entre caras e bocas.

“Somente vi o filme porque um amigo veio me visitar com a fita e uma garrafa de absinto a tiracolo. Em primeiro lugar eu processaria o autor do documentário porque tentou usar o meu nome para criar sensacionalismo, para gerar uma polêmica rasteira. O dr Gachet, ao que me consta, era artista amador e realmente tentava copiar quadros de Van Gogh enquanto ele estava sob seus cuidados. Mas era apenas um hobby de médico entediado. Só para se ter uma idéia do quanto é fácil distinguir uma suposta falsificação de Gachet do original, basta dizer que ele primeiro desenhava os contornos para depois enchê-los de cores. Pois bem, o medíocre documentarista, aproveitou-se de um tema que deve mexer com o imaginário de muitas pessoas: a enigmática personalidade do médico que virou quadro de Van Gogh e seu suposto envolvimento com falsificações. Aproveitou-se para envolver o meu nome na cena final. Foi um recurso desnecessário e barato: tirar proveito daquela situação, porque eu tinha acabado de fugir da cadeia e estava na mídia.”

“Mas o documentário ganhou alguns prêmios importantes...”

“Não entendo os critérios comerciais que estão por detrás dessas premiações. O final do documentário, em que mostravam cenas da minha prisão e tentavam explicar como consegui fugir sem deixar pistas, foi tão primário quanto uma falsificação do dr Gachet. Deram mais ênfase ao fato policial do que ao questionamento sobre a validade da minha obra, que poderia até ser abominada, não me importo. O depoimento daquele promotor de merda, que se seguiu, sobre ética, virtude, e outras baboseiras foi ridículo.”

“Qual o seu conceito pessoal sobre ética e virtude?”

“Olha... Vivemos cercados de contradições, uma delas diz respeito à real utilidade da virtude e, por conseqüência, da ética. Buscamos a virtude mesmo quando ela é desnecessária, a rejeitamos quando não temos escolha. A virtude nos salva e nos consome.”

“O senhor acredita então que nem sempre devemos consultar os nossos códigos de ética?”

“Olha, sou apenas um artista. O que ocorreu comigo foi um mal-entendido. Um arbítrio necessita apenas de uns poucos mal-entendidos.”

O homem desfiava seus sofismas, estava atento a qualquer provocação. Começava a usar a tática de responder o que não fora perguntado, pensava a repórter. Além de hábil falsário de obras de arte, sabia manipular uma situação como ninguém, um especialista em autopromoção. Inexplicavelmente, porém, parecia exaltar-se na presença dela. A jornalista já fora alertada sobre seus jogos de cena para desviar a atenção do interlocutor. Ele citava exemplos de mal-entendidos históricos, sobre personagens de quem ela nunca ouvira menção, quando parou de súbito e começou a arfar, parecia que procurava entender o que se passava em seu corpo.

Aquelas foram as suas últimas palavras. O falsário sofreu um infarto fulminante. A repórter, atônita, ainda tentou reanimá-lo.

Dr. Gachet            Van Gogh



Escrito por los inertes às 21h17
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