MILES
Olhou para Miles e ele fez um gesto que, se não era de reprovação, parecia ser um pedido de calma. Quando se está ali, na presença de Miles, sabe-se que aquela é a maior chance de sua vida. Não conseguia ver os seus olhos, escondidos sob enormes óculos escuros. Recebeu diversas recomendações no ensaio e portou-se bem. Até levou um tapinha nas costas de Miles. Sabe-se lá o que isso significa? É claro que tinha uma boa idéia do que representava, mas não o suficiente. Foi o escolhido justamente por isso: não se intimidaria. Seria o melhor substituto, escolhido pelo próprio Davis. Debochado, desenvolto, petulante, mas que parecia saber a hora certa de recolher-se. Nunca sabemos ao certo porque somos os escolhidos. Miles é um homem tranqüilo. Ele chegou num ponto em que qualquer detalhe pode ser bem-vindo se soar bem. Ou desde que possa vir a soar bem. Foi quando o outro insistiu num rumo diferente. Miles levou adiante. Ele sabe que o mundo mudou. Ele sempre foi o cara. Miles aproveita e faz uma graça. Emenda um La vie en Rose para que o outro entenda. A platéia sorri. A platéia agora quer uma viagem compreensível e divertida. Este é o espírito de um mundo cansado de experiências vazias. O outro fica desbundado, volta à sua base quadradinha, falam a mesma língua, para bom entendedor um semitom basta. Miles sorri, é a primeira vez que faz isso então, e aproxima-se enquanto sustenta uma nota na surdina. Chama o outro num particular. Entrega de bandeja o solo, depois de um pequeno esbarrão, e sai de cena. Sabe-se lá o que isso significa? Já tinha sacado que se tratava da linha em que o outro se sentia à vontade. O outro percebeu que por ali ficava fácil ir com tudo. A platéia delira.
Miles está muito econômico em seus sorrisos hoje. Está cansado, apesar de parecer um menino. Um fotógrafo exagera nos flashes. Sua generosidade parece não ter limites. Corria o ano de 1990.

Escrito por los inertes às 23h00
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