É NECESSÁRIO SER SIMPÁTICO.
“Il faut être sympa”, precisava terminar logo com aquilo, mas detesto esse tipo de tradução e perco-me em digressões inúteis, o teclado não obedece mais. Nessa conjuntura inexpugnável o interfone toca.
“ A senhorita Andréia está aqui.”
Senhorita Andréia? Senhorita Andréia? Naquele momento, não conhecia nenhuma senhorita Andréia que poderia visitar-me àquela hora. Senhorita Andréia?
“Posso falar com a senhorita Andréia?”
O porteiro passou o interfone para ela.
“Alô! Você não está enganada?”, perguntei.
“Não Luiz, eu sou aquela Andréia que estava com a Sandra ontem.”
“ Ah! Andréia! Desculpe! Pode subir.”
Ela esteve na minha casa ontem. Sandra veio visitar-me, manter nossa amizade depois do namoro. Não a culpo, namorar alguém obcecado não deve ser um bom negócio. Veio acompanhada de uma amiga, para evitar o constrangimento de rever-me pela primeira vez depois. Estava em apuros pois precisava de uma tradução para aquele texto acadêmico. Pediu-me para ser justo, o que foi ridículo. Também fui ridículo quando quis demonstrar que estava muito ocupado, que esperava uma visita e deveria tomar um bom banho e vestir-me de maneira adequada, pois deveria ir a um casamento. Peguei, então, o trabalho, concordei em fazê-lo, eram somente dez páginas.
Andréia causou-me a mesma impressão da primeira vez pelo olho mágico. Era muito jovem, pensei até que fosse parente e não amiga de Sandra. Não consegui observá-la direito devido à grande tensão do primeiro-encontro-com-a-ex-namorada. Ela finalmente tocou a campainha de novo. Fiquei perdido no olho mágico. Abri a porta, envergonhado pela demora. Ela sorria simpática, trocamos os beijinhos faciais. Perguntou se não me atrapalhava. Respondi que não. Conversamos um pouco sobre a Sandra. Ela namorava um corretor da bolsa de valores agora. Deu-me o guarda-chuva molhado. Disse-lhe que não percebi a chuva, o que mais poderia dizer-lhe? Ofereci um café. Ela aceitou.
Fui à cozinha disposto a preparar o melhor café que conseguisse. Que importam os fantasmas morais? Posso preparar o café que quiser desde que tenha o creme de baunilha. Andréia assim se sentiria à vontade, por mais que estivesse hesitante. Ela soprará o café de olhos fechados, percebendo o perfume especial impregnado de orquídeas. Irá surpreender-se ao caminhar por toda a casa, curiosa sobre cada um dos objetos que encontrar. Conversaremos o tempo necessário para o breve impulso. Andréia, preste atenção em tudo o que eu disser, deixe-me abraçá-la, podemos tentar nos entender. Como pude deixar de reparar em você antes?
Servi o café com a bandeja. Ela observou-me com brandura, de uma forma que harmonizava com sua pele de porcelana, seus óculos de armação vermelha que acabou de retirar, seus braços delicados. Fixei seus olhos de cristal desculpando-me, mais uma vez, pela demora. Ela parecia ansiosa, preferiu sem o creme de baunilha e limitou-se a perguntar se não havia adoçante dietético.
“Não gosta de creme de baunilha?”, perguntei.
Ela me encarou séria, quase desaprovando a questão. Permanecia calada, o que era constrangedor. Talvez fosse também indelicado perguntar-lhe os motivos da visita. Falei que Sandra já havia me falado sobre ela. Ela me perguntou se eu andava trabalhando muito. Quando lhe falei que traduzia o livro de auto-ajuda “Il faut être sympa”, sua expressão pareceu iluminar-se. Disse-me que tinha lido o original em francês. Eu buscava fazer alguma observação sobre o trabalho quando ela, num breve impulso, interrompeu-me:
“Bem, desculpa, mas eu não esqueci umas chaves aqui ontem?”

Escrito por los inertes às 17h51
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