RANCORES
Sentou-se ao computador. O telefone tocou e prosseguiu. Não importa. O telefone não parava de tocar. Como tem gente insistente!
Sempre se arrependia quando era tarde demais. Seu amor-próprio era precário, por isso estava ali escrevendo aquele e-mail: “não devemos alimentar rancores”. Aquela frase o deixou estático. Por que começar assim? Mais uma das suas frase feitas. Ela nunca o perdoaria. Talvez fosse um excelente ponto de partida para todo tipo de interpelações. O telefone não pára. Foi atender, ficaria louco se não o fizesse.
“Alô?”
“Alô, seu canalha”, era uma mulher e ele não reconheceu a voz.
“Quem fala?”
“Você não sabe? Não seja cínico?”
“Realmente não sei.”
“Hipócrita!”
“Não reconheço a sua voz.”
“Mas eu reconheço muito bem a sua.”
“Então, quem é você?”
“Hipócrita!!!”
“Vou desligar então. Já que você não quer se identificar.”
“Cínico, Safado.”
“Querida... seja lá quem for... não devemos alimentar rancores”, desligou.

Escrito por los inertes às 09h20
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