ANIMAIS DE ESTIMAÇÃO

 

Ela se cansou de animais de estimação e resolveu casar-se com Jonas. Não que ele não fosse um animal — de estimação — pelo contrário. No puro sentido da palavra, tratava-se de uma excelente diversão. Puxava com desenvoltura o arado, fazia previsões meteorológicas certeiras, domesticava gansos, uivava o suficiente para afugentar pássaros nocivos, pescava com as mãos, era um notável vigilante, veloz como um antílope, sagaz como um velho macaco, fornicador incansável. Se não entretinha Ofélia com truques ou com o clavicórdio, lá vinham as piadas. Piadas de corcundas, de padres, de galinhas que colocavam ovos cor-de-rosa vendidos nos botequins, da mãe que subiu no telhado. Ah! Ele também costumava subir no telhado para se exibir e freqüentava botequins, onde se empanturrava de ovos cor-de-rosa e cerveja negra com tutano. Ela o amava. Queria escolher qualquer um, mas os homens apenas pensavam em comê-la. Era dona de um corpo e tanto, os seios apontavam para as estrelas, suas pernas eram magníficas, caminhava com elegância, os braços, leves, de uma leveza que começava nas suas costas, na sua envergadura frágil, e ia espalhando-se por todo o ambiente. Uma lebre de imaginação fértil, olhar aristocrático, e que sabia muito bem cativar e desvencilhar-se de um suposto pretendente. Deixava-se persuadir. Tinha a exata noção de como insinuar que possuíam afinidades e de como esquecê-las. Ofélia e Jonas não tinham afinidades. No princípio, pareciam evidentes. Evidentes demais para não serem colocadas à prova. Julgavam o tempo curto, queriam distendê-lo e descuidavam, e daí surgiram as acomodações. Primeiro veio o período da estranheza, depois o da submissão. Lá pelas tantas ele chegava em casa no horário estipulado. Ela estava pronta com o seu tubinho básico. Ele colocava o tipo de música predileta de Ofélia, fazia-lhe massagens de Do-In no pé, estalando o seu pescoço ao final , abria uma garrafa da melhor champanhe imaginável, acendia um incenso. Ela estava pronta e chamegosa. Ela  submeteria-se.

Vieram mais algumas fases, sem que a fase da submissão fosse superada. Por isso, tudo acabou, sem que nenhum dos dois desejasse o fim.

 

                         

                                     Saphic couple - Auguste Rodin



Escrito por los inertes às 20h46
[] [envie esta mensagem]



[ ver mensagens anteriores ]


 


Histórico
14/12/2008 a 20/12/2008
05/10/2008 a 11/10/2008
27/07/2008 a 02/08/2008
01/06/2008 a 07/06/2008
06/04/2008 a 12/04/2008
16/03/2008 a 22/03/2008
27/01/2008 a 02/02/2008
13/01/2008 a 19/01/2008
30/12/2007 a 05/01/2008
02/12/2007 a 08/12/2007
18/11/2007 a 24/11/2007
04/11/2007 a 10/11/2007
28/10/2007 a 03/11/2007
14/10/2007 a 20/10/2007
23/09/2007 a 29/09/2007
09/09/2007 a 15/09/2007
02/09/2007 a 08/09/2007
19/08/2007 a 25/08/2007
12/08/2007 a 18/08/2007
29/07/2007 a 04/08/2007
15/07/2007 a 21/07/2007
01/07/2007 a 07/07/2007
24/06/2007 a 30/06/2007
10/06/2007 a 16/06/2007
03/06/2007 a 09/06/2007
06/05/2007 a 12/05/2007
29/04/2007 a 05/05/2007
15/04/2007 a 21/04/2007
08/04/2007 a 14/04/2007
25/03/2007 a 31/03/2007
11/03/2007 a 17/03/2007
04/03/2007 a 10/03/2007
11/02/2007 a 17/02/2007
04/02/2007 a 10/02/2007
21/01/2007 a 27/01/2007
14/01/2007 a 20/01/2007
07/01/2007 a 13/01/2007
24/12/2006 a 30/12/2006
17/12/2006 a 23/12/2006
10/12/2006 a 16/12/2006
03/12/2006 a 09/12/2006
26/11/2006 a 02/12/2006
12/11/2006 a 18/11/2006
05/11/2006 a 11/11/2006
29/10/2006 a 04/11/2006
22/10/2006 a 28/10/2006
17/09/2006 a 23/09/2006
04/06/2006 a 10/06/2006
23/04/2006 a 29/04/2006
09/04/2006 a 15/04/2006
26/03/2006 a 01/04/2006
12/03/2006 a 18/03/2006
05/03/2006 a 11/03/2006
26/02/2006 a 04/03/2006
19/02/2006 a 25/02/2006
22/01/2006 a 28/01/2006
15/01/2006 a 21/01/2006
08/01/2006 a 14/01/2006
25/12/2005 a 31/12/2005
11/12/2005 a 17/12/2005
04/12/2005 a 10/12/2005
27/11/2005 a 03/12/2005


Votação
Dê uma nota para meu blog


Outros sites
UOL - O melhor conteúdo
BOL - E-mail grátis
Balaclava
Inveja de Gato
Blá Blá Blog
Fina Flor do Brega
Acontece com a mulheres
Blog do Torero
paralelos;
Rango na Madrugada
Poetisa Brasileira
Quem sabe uma (quase) Bridget
Carpinejar
Quitanda das Palavras
Amar-ela
Até onde vai
Lacopa
Universo Anárquico
Devaneios Femininos
Devotas Gozosas