SUELLEN
Suellen sonhava. Queria apenas provar a si mesma que ainda estava sonhando. Pouco lhe importava o que pensassem. Os pais acreditavam que todas as etapas da vida devem ser marcadas, algo bem especial. Queriam aparentar orgulho de suas raízes e convicção em seus princípios. Simplesmente se esforçavam para cumprir o seu papel.
Suellen vivia apegada à infância de muitas formas. O seu quarto estava repleto de animais de pelúcia encardidos, bonecas com o cabelo estragado, perfumes e sachês falsificados, segredos inconfessáveis, fotos de artistas da televisão sem camisa. Ela se equilibrava, hesitava ante ao que lhe faltava para ser uma mulher e ao que ainda lhe servia. Na sua cabecinha fofa misturavam-se desejos, preconceitos, ilusões, vontade de descobrir o mundo disponível. E, sobretudo, sonhos que ela insistia em não abandonar. Indecisões a guiavam por toda parte.
Os rapazes mais velhos a assediavam pelo seu jeito despudorado de inocência. Os mais jovens, pelos lindos olhos. Suellen andava muito feliz e, ao mesmo tempo, apreensiva na sua festa de 15 anos, em algum bairro da periferia do Rio de Janeiro.
Naquele subúrbio, a mãe de Suellen era muito popular. A festa corria com todos os detalhes tradicionais. A mãe da debutante queria que o rapaz da valsa estivesse fardado com trajes militares de gala. A escolta ao seu trono de princesa deveria estar a cargo de jovens devidamente paramentados. A roupa branca de Suellen brilhava com os reflexos da esfera de discoteca. O traje militar que conseguiram foi o de um cabo que servira na Academia das Agulhas Negras. Os dois jovens que a escoltavam pareciam vestidos como carregadores de hotel.
Suellen, já acostumada aos bailes funk, sorria. Não se sabe se emocionada com aquele simbolismo, ou apenas por estar totalmente sem graça com todos os parentes, vizinhos e as amigas de escola por ali, uma solidariedade só. Ela dançava a valsa sem jeito, o seu primo no uniforme branco de cabo a conduzia num rígido um pra lá, outro pra cá.
O pai de Suellen sumia em algumas noites. A mãe trabalhava na recepção de um hospital, e dava plantões constantes aos Sábados. Era muito religiosa, e louvava aos céus nos cultos da Assembléia de Deus. O pai estava bêbado e tropeçou na sua hora de dançar. Tentava inventar uns passos na medida do seu quase cambaleio. A mãe de Suellen apenas tinha olhos para a felicidade da filha. Apesar de tudo, Suellen ainda sonhava. E ela equilibrava-se em suas hesitações, ante ao que lhe faltava e ao que poderia ser feito para sua salvação.
Ao final, depois do bolo, como deveriam ser as festas do pessoal da zona sul do Rio de Janeiro, o único pedido da debutante: um tempo reservado para todos se soltarem. Suellen queria muito samba, daqueles modernos das rádios FM, e músicas dos bailes funk, aquelas que poderiam ser tocadas ali sem escandalizar as tias e madrinhas da Assembléia de Deus, é claro.
Suellen estava radiante, esgueirava-se entre os penetras mal-encarados, distribuía sensualidade e simpatia, provocava discretamente quem se apresentava. E dizia no requebrado sem medidas, totalmente largado, no calor que subia pelas vértebras e balançava os seios presos naquele vestido desconfortável. Não era pouco o desejo que despertava. Aos seus era pura ternura, e deixava escapar olhares melancólicos.
Sua grande noite de conto de fadas avançava. Ela, de fato, divertia-se a valer. Mantinha-se sempre atenciosa e sorridente até que começou a sentir-se enjoada quando parou para um descanso. Estava cada vez mais tonta, aquele calor não era fácil. Fez um esforço para manter as aparências, mas viu que seria pior. Pálida, Suellen ainda conseguiu pedir ajuda à mãe, que a conduziu ao seu quarto, ligou o ventilador, ela por pouco não desmaia. Pobrezinha, era muita emoção para um dia só, o mais importante de sua vida. Os parentes ficaram preocupados, fizeram uma prece, uma corrente que valia à pena nessas emergências. A tia veio com o boldo colhido na horta. Era só questão de repousar a princesa, acalmar o seu coraçãozinho de menina. Apenas um mal-estar passageiro. E a festa continuou correndo solta apesar de sua ausência. A festa não pode parar, a não ser por um enorme motivo. Essa gente está acostumada a sofrer.
Suellen adormece com os anjos depois de chorar e receber carinho. O seu pai capota. A cerveja não dura para sempre. O DJ acertou que o som da festa acabaria às 2 da madrugada em ponto. Pouco antes, não é bobo nem nada, começa com as canções de baixar a bola. Música de corno, como diria o avô da Suellen.
Dia seguinte é um outro dia, com toda a preguiça e ressaca a que se tem direito. Suellen foi a primeira a acordar. Levantou-se antes da mãe que iria ao culto dominical. A lembrança da noite anterior lhe soava com pouco sentido. Preparou sozinha o café da manhã: leite com chocolate, pão francês com margarina, muita margarina como gostava. O que estaria acontecendo? Não conseguia desviar seus pensamentos. A gente pode encontrar muitas respostas. Nenhuma delas suficientemente clara.
Quando a mãe de Suellen chegou à cozinha, encontrou-a ainda enjoada.
“O seu pai e seus avós te mimam demais” ela gostava de repetir. “Já falei que você exagera no leite. Leite demais faz mal para o estômago.”
Resolveu levá-la ao posto de saúde. O governador, em final de mandato, inaugurou um novo posto de saúde nas redondezas.
“Você andou bebendo ontem, menina? Você andou bebendo escondida! Isso não é coisa para moça da sua idade. Aliás, a bebida está desgraçando nossa família.” Suellen não encontrou ânimo para retrucar.
A mãe de Suellen estava curiosa sobre o novo posto de Saúde. Tinha devoção pelo governador, homem ligado a pastores da Assembléia de Deus. O posto estava vazio naquele domingo. Era muito cedo. O ambulatório novinho em folha dava a impressão que muitos problemas seriam resolvidos, por enquanto. Era ainda muito cedo. Foram rapidamente atendidas por um jovem médico, que deixou a mãe e a Suellen encantadas. A debutante estava bem melhor, como se nada tivesse acontecido. Ele, depois de fazer algumas perguntas e procedimentos de praxe, se deu conta de algo, antes de sacar o receituário.
“Como anda a menstruação da moça?”
Estava atrasada há mais de um mês. O jovem doutor prescreve vitaminas, com uma letra forçadamente ruim, e um “Exame de Sangue Beta-BHCG.”
O mundo parece desabar para a mãe da menina quando recebe a explicação cautelosa. Para Suellen, a ficha demoraria a cair, apesar de toda inquietação familiar.
Dias depois Suellen recebe o resultado do exame. No mesmo dia, sabe pelos jornais que o pai do filho em seu ventre havia morrido. Troca de tiros com uma quadrilha rival durante disputa no tráfico de drogas.

Escrito por los inertes às 19h53
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