A ARTE CAVALEIRESCA DO ARTILHEIRO ZEN
O Boca é um time mais organizado, cada um parece seguir um script bem ensaiado em que os jogadores do Flu são os coadjuvantes e estão prontos para dar a sua humilde contribuição. No primeiro tempo os tricolores mal vêem a cor da bola, assistem passivamente Riquelme levar o árbitro no bico. Riquelme costuma colocar a bola e a barreira onde quer. Isola a bola.
Dodô está no banco, as câmeras da rede Globo o ignoram, o locutor não tem tempo de falar bobagens, deve narrar os constantes zig-zags dos atacantes do Boca, seu toque de bola refinado, parecem ser eles, e não nós, os verdadeiros artistas da bola. Seus jogadores insistem em não parar, e o comentarista da TV está encantado, exalta a habilidade, a organização, a inteligência dos jogadores portenhos. Declara sua admiração incondicional. Por pouco não deixa escapar o quanto são belos.
Dodô está no banco, coitado. Com o rosto cheio de platina.
Aqueles pobres torcedores tricolores, tão acostumados à dor, sabem que é questão de tempo, o segundo tempo. E o tempo é implacável. Como diria o poeta, o tempo segue colocando cabelos brancos nas nossas têmporas (por que será que os cabelos brancos começam a surgir pelas têmporas?).
Vem a segunda etapa e nada muda. 12 minutos e o esperado gol surge. Da maneira menos justa possível. Um frangaço. E... é... só resta chamar o Dodô, é melhor do que nada. O banco do Fluminense não tem outra opção ofensiva. A testa de Dodô ainda está levemente inchada. Cheia de parafusos. Ele é a frieza em pessoa. O técnico está tão baratinado que vai tirar o seu jogador favorito. (por que os técnicos de futebol têm tantas preferências que fogem ao senso comum?)
Dodô sofre falta. Quer cobrá-la. Washington aparece sorrateiro. Elemento surpresa. Gol. Dodô parece indiferente mesmo assim.
Dodô deixa Conca próximo ao gol. Conca avança e chuta cruzado. A bola bate num zagueiro brutamonte e engana caprichosamente o goleiro. Gol. Dodô parece indiferente mesmo assim.
Dodô perde dois gols.
Dodô recebe um presente do argentino Palácios, que não joga bem. Dodô não perdoa dessa vez, domina com classe, dribla um beque e toca a pelota com habilidade para os fundo das redes. Ela entra quase mansa. Ele confirma seu estado de paz e serenidade, de uma vez por todas. Um verdadeiro arqueiro Zen. (por que será que os goleiros são chamados de arqueiros?)

Escrito por los inertes às 23h44
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