GUIA DEL VIAJERO

 

- Deixe o pior para depois.

- Se não conseguirem identificar de onde você vem, deixe essa dúvida no ar.

- Esqueça o que vai fazer. Só se lembre no momento exato.

- Apenas o acaso existe e faz sentido.

- Evite manter o controle.

- Não adianta se preocupar com o que não está sob seu controle.

- Vá ouvir uma música e escrever de vez em quanto.

- Se não estiver se divertindo, observe com cuidado o que se passa ao redor.

- Agir por impulso também faz parte do jogo, mas as possibilidades de quebrar a cara aumentam.

- Se quiser falar com alguém, fale. Mesmo que seja uma saudação mínima.

- Não se deixe impressionar pelo tempo.

- Qualquer chance pode ser única.

- Saiba diferenciar uma iguana de um jacaré.

 

             



Escrito por los inertes às 17h41
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SAMBA NO PÉ

 

À noite todos os gatos são pardos, ou negros, ou malhados. Ou: à noite todos os gatos saem para fazer arruaça. Por ali tudo era muito mais do que uma batucada inconseqüente. J. , o turista, tentava. Um turista quer apenas esquecer. Para quem enxerga o mundo com os olhos de um turista, tudo acaba em samba.

A noite é persistente. Ainda é possível dar mais uma, porque samba e amor são feitos até mais tarde. Pode-se sempre quando... Pode-se quando sempre...

J., o turista, praticava o arrependimento. Arrependia-se dos anos perdidos. Arrependia-se por sua antiga desatenção. Arrependia-se por tantos arrependimentos. Porém, agora sim. A nega desata o sorriso e refaz a noite com o samba a escorrer pelos pés.

 

                       



Escrito por los inertes às 23h05
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URUBUS

 

Inerte 1 ( Professor Helmold)

 

Hoje eu me perguntei uma coisa. Parece tolice, mas deve ter alguma boa explicação lógica.

Porque voam os urubus ?

Porque ficam horas pairando, sem chegar a lugar algum, apenas divertindo-se com as correntes de ar ?

Aparentemente eles não têm nada a ganhar com isso.

Não estão caçando.

Não estão comendo.

Não estão dormindo.

Não estão fazendo sexo.

O que mais podem aspirar os animais ?

 

Eu havia saído da sauna e deitei numa cadeira ao sol, de óculos escuro.

Dei de cara com um céu de azul intenso, mas muitas nuvens, em várias altitudes.

Na frente de uma grande nuvem baixa, havia -primeiro- um casal de urubus. Dominou o pedaço um bom tempo. Calculei que estivessem a uns mil metros de altura. Não faziam nada, exceto se equilibrar em círculos. Apenas com as asas abertas, como se fossem umas gaivotas negras, ficavam pairando daqui ali, e voltando. Eram pontas negras sobre o fundo branco da nuvem. Fiquei olhando um bom tempo. Estava bonito e eu estava relaxado, me sentindo parte daquilo ali. Então foram aparecendo outros urubus. Geralmente de dois em dois, ou seja, casais. Mas no final voavam todos em formação ensaiada, como um esquadrão da Luftwaffe.

A minha conclusão, a única possível ali no momento para um não biólogo, é de que aquelas aves, os urubus, "brincavam", o que significa portanto que tinham perfeito consentimento da sensação lúdica que uma brincadeira pode conter.

Os urubus brincam, pois.

Detalhe: lá em cima a temperatura pode já beirar os 6º C.

 

Inerte 2 (Inerte Comum)

 

Os urubus voam porque não lhes resta nada mais a fazer. Por não terem nada que lhes atrapalhe, eles voam.

Por que não ficar apenas pairando no ar? 

Imagine que você fosse um urubu e pensasse como um homem.  Você não ficaria pairando no ar o tempo todo e  não teria a desculpa de não ter asas.  Você não ficaria planando o tempo todo por achar que existem coisas mais importantes que isso. O que seria uma grande mentira.

 

             

                                                                 



Escrito por los inertes às 22h17
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O REDATOR

 

O redator recebeu a ordem de ser o mais isento possível. Corrigia a sua escrita quando se aproximava de alguma presunção. Os fatos falam por si e pronto. Tudo minuciosamente planejado. O redator sabe que é cômodo ignorar aquilo que nos foge à compreensão, e o quanto somos apegados à nossa meia-dúzia de convicções e seus mínimos indícios. O redator recolhia todos os acontecimentos, fazia exercícios de memória, separava as palavras, especialmente os adjetivos e os possessivos. Chegou até onde poderiam restar dúvidas, mas parava quando uma opinião se insinuava, no seu limite. Os fatos falam por si e pronto. Por enquanto é essa a grande regra, apesar de cada palavra trazer impressa a marca de quem a escreve. Assim como a imagem de algo é sempre o olhar de alguém.

 

                    

             

 

               



Escrito por los inertes às 23h23
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ACONTECIMENTOS INERTES QUE MARCARAM  2007

 

  • O Rei Juan Carlos, irritado com o discurso do presidente venezuelano Hugo Chaves, proferiu a célebre frase que muitos gostariam de ter dito( não somente ao líder sul-americano como também às suas sogras): “Por qué no te callas?” .
  • O Nova Iguaçu foi rebaixado para a segunda divisão do campeonato carioca.
  • Mônica Veloso, ex-amante do Senador Renan Calheiros, posou nua na Playboy.
  • Paris Hilton foi presa por dirigir embriagada e sem habilitação, passando 23 dias em cana.
  • Um paleontólogo búlgaro chegou a uma conclusão que vai de encontro ao que parecia irrefutável no final de 2006: a galinha veio antes do ovo. Segundo o pesquisador, a galinha é descendente de um mamífero plúmeo que habitava a região do lago Titicaca, o galineos espamathosys. Uma mutação ocorrida durante um período pós-glacial, provavelmente devido a maior incidência de raios infra-vermelhos, fez com que essa espécie passasse a colocar ovos.
  • O estilista Ronaldo Ésper foi preso ao tentar roubar algumas ornamentações fúnebres num cemitério da capital paulistana.  
  • O astro de futebol de botões  Faber Rennó pendurou a palheta e passou a se dedicar à música. Ele pode ser visto soltando a voz com freqüência em memoráveis serestas na aprazível estância mineira de Santa Rita do Passa Quatro .
  • As Spice Girls retornaram, depois de 10 anos, num show durante o desfile da grife Victoria´s Secret.  
  • Luana Piovane declarou em seu blog ser a musa de Caetano Veloso na música “Um Sonho”. Caetano a princípio negou, mas depois voltou atrás em junho, durante um show.
  • Foi descoberto por uma pesquisadora indiana, Yvana Sutra, porque quando estamos com vontade de espirrar e olhamos para o sol ou para uma lâmpada, espirramos com maior facilidade. Segundo a cientista, esse fato ocorre pois as mensagens visuais enviadas para o nosso cérebro passam próximas daquelas enviadas pelo nervo olfativo e pelo trigêmeo, que comandam a contração dos nervos da mucosa nasal, estimulando, assim, o mecanismo do espirro.
  • O mineiro Walnei Almeida Reis, saltou de um helicóptero a 48 metros de altura para a piscina do Clube de Regatas Tietê, em São Paulo. "De cima, a piscina parecia um copo de água", declarou Walnei, que com o seu salto superou o norte-americano Hank Dikson, antigo detentor do recorde.
  • O goleador Dimba do Brasiliense se revoltou após um jogo de seu time em que se sentiu prejudicado pela arbitragem: "O que aconteceu aqui é caso de Polícia Federal, de FMI, voltar pênalti porque torcida está gritando é brincadeira", protestou Dimba, querendo se referir ao FBI, a polícia federal dos Estados Unidos.
  • O blog Manual Complicado de Inércia vai ficar cada vez mais inerte em 2008, por motivos alheios à nossa vontade. Devagar, quase parando.

                   



Escrito por los inertes às 10h57
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O VERÃO E SUAS SURPRESAS

 

Assistia-se a mais uma aula de Geografia no colégio apenas de meninos. Colégio religioso, onde se doutrinava o amor e o temor a Deus sobre todas as coisas. Atenção irrestrita à professorinha, linda moça a despertar os primeiros olhares de lascívia dos adolescentes impúberes. Usava-se o artifício de deixar cair materiais escolares ao chão, a fim de se ter uma melhor vista daquelas pernas torneadas e morenas. Quiçá alcançar a sorte suprema de verificar a cor da calcinha daquela fêmea estonteante.

A mestra, no seu meigo didatismo, discorria sobre a formação dos continentes. Era um dia quente de verão e ela estava especialmente sexy com naquele vestido leve e transparente.

“Vejam bem aqui a evidência no mapa. Nota-se claramente o encaixe perfeito da África com a América do Sul. No princípio era tudo um bloco só, uma imenso continente que se separou graças à ….”

Ela mal teve tempo de terminar a frase, quando um forte barulho, seguido de tremores no solo levou pânico a todos. Os ladrilhos cor de tijolo se desprenderam caprichosamente, revolvendo o chão em todos os cantos em escassos segundos. A cuidadosa professora, a fim de preservar seus alunos acima de tudo, tentava dominar seu próprio pavor. Ela consegue se recompor e orienta a retirada dos meninos daquele ambiente fechado que oferecia tanto risco.

“Nada de pânico, vamos sair ordenadamente. O que ocorreu foi algo muito raro, mas que pode acontecer. Foi uma acomodação do solo, um pequeno terremoto. Vamos sair com calma. ”

Os jovens, num misto de excitação e medo, acorreram ao pátio. Por lá permaneceram até a hora do recreio. Ficaram fascinados com a idéia de terem vivido um terremoto, tal qual ocorria naqueles filmes japoneses de monstros.

Algum tempo depois veio a decepção. Tudo tende ao equilíbrio, ou melhor, o equilíbrio na natureza é instável e houve, de fato, uma acomodação. Uma acomodação de ladrilhos. Não se pode assentar ladrilhos assim tão justos, pois corre-se o risco de haver dilatação da matéria cerâmica com o calor.  O verão continuava a reservar suas surpresas.  

                             



Escrito por los inertes às 20h43
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FILMES NO AVIÃO

 

É comum ficarmos frente à frente com nossos fantasmas quando acordamos no meio da noite. Algum tempo depois, verificamos que a realidade pode ser bem menos cruel. Havia conseguido uma proeza, pois não consigo dormir em aviões. De pronto não pude estimar por quanto tempo fiquei entregue ao sono, sem sonhar.

Acabei por me distrair com aqueles filmes que nunca veria normalmente. Um louco constrói um foguete num silo, ele quer viajar para a estratosfera, a sua esposa compreensiva e linda o apóia incondicionalmente. No grande dia do lançamento, ela pede que ele não se atrase para o almoço. Aquela geringonça alça vôo, mas logo cai num deserto próximo e o sonhador visionário sobrevive com alguns ferimentos. Um pai de família entediado parte para uma aventura extraconjugal. Depois de passar por inúmeros contratempos, inclusive um ataque de priapismo que o faz parar no hospital por tomar uma dose exagerada de remédio para disfunção erétil, ele percebe que a sua mulher é o único e grande amor de sua vida. Uma senhora ao meu lado chora com a cena final. O seu marido ronca de maneira descompassada. As pessoas acabam se emocionando por bem pouco.  Uma jovem inquieta mantém-se em pé, eventualmente circula pelo corredor. As pessoas agem de diversas formas enquanto voam. E pensar que tem gente que consegue até transar em banheiros de avião.

 

                         



Escrito por los inertes às 22h54
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REGRAS DE ETIQUETAS

 

Como se portar em um grupo festivo sem conhecer ninguém

 

Você está meio perdido e encontra um velho e bom amigo. Ele te convida para almoçar ali perto. Por que não? Você se anima por um motivo qualquer. Está de olho em alguém do círculo de amizades do sujeito, por exemplo. Lá vão vocês em nome da velha e boa amizade. Chegam ao restaurante, por sinal um restaurante bem festivo. O seu amigo acabou de cometer uma gafe bem séria, não comentou que você iria reunir-se com pessoas que nunca viu na vida para comemorar um aniversário. Ele não fez por mal, nunca vai perder esse defeito de ser um completo distraído, e conhecer novas pessoas é sempre enriquecedor. O seu velho e bom amigo, antes de conseguir apresentá-lo aos demais, é praticamente obrigado a sentar-se num lugar reservado. A você resta uma única cadeira vaga do lado oposto da mesa, ao lado de um senhor sério, que por sua vez está posicionado defronte a uma mulher um tanto alterada, muito sexy por sinal.  Ela fala pelos cotovelos. Defronte a você, encontra-se um rapaz muito risonho, que recebe uns afagos da mulher. A primeira regra nessas circunstâncias é: procure entender o mais rápido possível o temperamento dessas pessoas e não faça interferências ousadas. O garçom já estava a postos e você escolhe logo um filé à parmegiana no menu, para não perder tempo. A mulher continua brigando com o homem sério. O homem sério filosofa que as mulheres gostam de nos fazer pensar que são capazes de tudo. A mulher, já meio alta, garante que ele merece um belo par de chifres. O rapaz parou de rir tanto, não tira os olhos de você. O comportamento humano até pode ser previsível dentro dos limites da ética do cotidiano, mas muitos são traídos pelo seu estado de ânimo. Enfim, o destino o levou até ali, você é tímido o suficiente para não se indispor com alguém que não conheça. Se o homem sério lhe pede uma opinião sobre o que ele filosofou, se a mulher fica te olhando com jeito de quem não leva desaforo para casa e o rapaz na sua frente enche seu copo de cerveja, só lhe resta dar um sorriso discreto, com o cuidado de não ficar mais admirando o decote da mulher. Não deixe ninguém sem respostas, essa é outra regra de etiqueta fundamental. Fale algo que não implique em tomar partido de alguém. Diga que o blefe faz parte do jogo. 

 

             



Escrito por los inertes às 09h39
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O LUTADOR

 

O lutador de tele-catch mexicano caiu de mau jeito, após se lançar contra o adversário numa tesoura voadora fora do script. Arriba México! Aquele lutador era inexperiente, tinha apenas boas noções de truques acrobáticos. Ele nasceu para isso, era  filho e neto de competidores do bem, os mais magros e atléticos, os que saem das contendas nos braços do povo. Aquele lutador de tele-catch pouco sabia sobre como lidar com farsas. Era um atleta do tipo mascarado, e o público gosta de heróis com fantasias, de protagonistas de capa e espada a desferir seus golpes elegantes e limpos. Um vingador nato. Mas o pobre paladino da justiça teve uma contusão na região lombar difícil de ser disfarçada. Falta de sorte, era a sua estréia substituindo um outro sob a máscara. O oponente asqueroso, declarado vencedor por nocaute, ameaça fazer picadinho do herói e é contido pelo árbitro e por auxiliares preocupados que invadem o ringue. Aproveitam e aplicam-lhe alguns sopapos. O espetáculo tem que continuar e o bem há de ser resgatado, não perdem por esperar os falastrões. O povo vaia com entusiasmo.

                                       



Escrito por los inertes às 10h12
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RUIVA DE GRIFE

 

Não adianta a calça lhe cair bem se não está confortável, se atrapalha a sua digestão, se não há outra saída que não seja desabotoá-la enquanto você está sentado. Orlando detesta lojas de roupas com músicas pop e vendedores dançantes. O seu salário não estava de todo ruim, ele já havia passado por algumas dificuldades financeiras na vida, o que marcou em seu subconsciente a necessidade compulsiva de poupar. Decidiu entrar em uma loja, finalmente, pois a calça lhe parecia a ideal.  A vida passa. De que adianta a vida passar, com todas as suas promessas, se a pessoa não tem uma calça decente que a faça se sentir segura? Pode parecer tudo muito fútil, mas é a insegurança que domina o nosso subconsciente e o mercado se nutre das fraquezas humanas.

Ela se mostrou por demais solícita, uma linda ruiva, cujo único objetivo era lhe mostrar o melhor que a vida tinha a oferecer. Orlando sempre abominou coisas como a mídia e a moda, e a moça se apresentou prontamente risonha. Rita era o seu nome. Ofereceu-se para guardar o seu livro e o guarda-chuva. Orlando hesitou um pouco antes de entregá-los. A vida passa, afinal.

Os momentos em que estamos num provador são dos mais solitários. Naquele cubículo ponderamos sobre nossos defeitos, nos damos conta do quanto o tempo é irreversível, fazemos um balanço de nossa condição social, analisamos o Custo X Benefício, descobrimos até como somos de costas em jogos de espelho. O motivo que nos leva a um provador daquele pode ser mais ou menos sério. Orlando pensava na estratégia das lojas que selecionam essas mulheres cativantes para atrair clientes. Uma linda menina cheia de vigor usada num mercado absurdamente competitivo. Era um especialista em teorias conspiratórias. Foi quando a Rita, do outro lado da porta, perguntou como ficou, depois de um tempo mais do que suficiente para o esboço de alguma decisão. Ela estava pronta para ajudá-lo a descobrir um mundo sadio e belo, e o Orlando pagaria um preço justo, liberado para enfrentar o seu próximo problema.

As pernas de Orlando são curtas e seu abdômen, volumoso. Não haveria calça que o vestisse como uma luva, era uma questão anatômica e as linhas de produção ignoram as exceções. Voltando de seus pensamentos, já conformado com aquela escolha pois já conhece os seus limites, o Orlando abre a porta e depara-se com a sua ruiva de grife. Ela foi pega em flagrante. Uma fatalidade, pois a Ritinha adorava dançar e aquela era a sua música favorita. Foi o suficiente para o Orlando desistir daquele item de consumo supérfluo. Ele fecha a porta num rompante e sem maiores explicações, enquanto a moça pergunta se não gostaria de experimentar algum outro artigo da nova coleção. Ele não quer ouvir mais nada. Exige rapidez na devolução dos seus pertences. Retira-se azedo, inventariando os problemas do mundo.   

                                   



Escrito por los inertes às 09h26
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EGO TRIP

 

A namorada do Jackson lhe disse que ele só pensava em si mesmo. Jackson tentou pensar em algo diferente e viu que, mesmo quando agia assim, acabava apenas se vendo na situação alheia. E, assim, só conseguia imaginar o que faria naquele outro lugar. Jackson tinha essa dificuldade mental, tão comum. A namorada de Jackson, no entanto, não percebeu isso. No seu desejo de buscar um mundo sem barreiras e sem preconceitos, ela se sentiu orgulhosa da solidariedade do seu namorado. Ela o admirava de verdade. E ele, por causa disso, a amava mais ainda.

 

                                                                                

                                    Cedric Morris - David and Barbara Carr 



Escrito por los inertes às 22h24
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DIAS MELHORES VIRÃO

 

Você entrou distraidamente num local público, quase por não ter um outro lugar para ir. Digamos, num bar de solteirões de meia-idade. Você está naquela fase em que você precisa refletir, a todo momento, sobre a importância das regras básicas de saúde. Você acabou de descobrir que o seu tempo de recuperação está se tornando cada vez maior. Sua bursite se tornou crônica, agravada pela insistência em fazer exercícios físicos que realcem seus músculos. Você aprendeu que a vida é feita sempre de escolhas, pois não dá para ficar até tarde na praia e, no mesmo dia, portar-se feito um garanhão solitário, disposto a libertar-se  em inúmeras danças de acasalamento noturnas. Você entrou naquele bar de solteirões solitários mais cedo do que seria necessário, mais tarde do que está acostumado, e o recinto está razoavelmente vazio. Tomará um trago para deixar de refletir tanto, o que tenha o menor teor alcoólico talvez. Não beberá cerveja, pois sua bexiga anda mais solta do que nunca. Pensa numa piña colada, mas  sem leite de coco, por favor. O bar-man diz que tudo é possível, mas a piña colada só pode ser com xarope de abacaxi. Você não gostou da idéia, é claro, e decidiu-se por um daqueles coquetéis inofensivos, afinal amanhã é seu dia de ficar com as crianças. Sua ex-mulher está saindo com um jovem e promissor talento, do tipo que está sempre prestes  a fazer uma grande obra genial, alguém que tem um projeto mirabolante, um livro, um filme, ou um negócio da China infalível, e vai vivendo assim, sempre prestes a. Ele usa um rabo de cavalo e insiste no revival das roupas de Bali. A música é do tipo lounge, trip-hop, ou o que o valha, música eletrônica moderninha e relax. Você olha ao redor. As pessoas desfilam como se não tivessem maiores pretensões, e fazem questão de demonstrar isso inequivocamente. Você não consegue evitar o primeiro bocejo da noite. Começa a pensar que, afinal, dias melhores virão, abusando dessa tática de auto-defesa emocional para relaxar e não gozar, quando finalmente seu coquetel cor-de-rosa chegou. O salão começa a ficar cheio o suficiente para que você consiga passar desapercebido, e até dar umas reboladinhas paradas ao som de “The Best of Budha Bar”. Insinua vagamente um brinde para uma mulher com aparência de gringa, que retribui de uma forma mais vaga ainda. Aquela noite promete. Dias melhores virão. Você está meio animadinho pois o coquetel não é tão inofensivo assim. À noite todos os gatos são pardos, e cada qual tem suas virtudes, defeitos, e suas cartas na manga. Assim pensando, fica mais animadinho ainda, afinal duas mulheres catalogadas por você como peruas vadias se aproximam e conversam ao seu lado. Você está certo de que nada acontece por acaso, só que não sabe como explicar isso para elas. Definitivamente você está numa boa e detonou aquele coquetel inofensivo num piscar de olhos. Continua com o copo na mão para ter algo que manipular. Decide pedir outro, quando uma mão toca vigorosamente em seu ombro. Vira-se. A princípio não reconhece, mas depois, aquela voz… Depara-se com ele, é ele, ninguém menos do que o Joelson. E o cara também está sozinho. Joelson te cumprimenta efusivamente. Fala com vários decibéis acima daquela trilha sonora de canto gregoriano eletrônico, mais alto do que todos naquela população de solteiros de meia-idade iniciando a calibração da noite ainda infantil. Fala com a chuva de perdigotos atingindo todos os pontos de seu rosto. Fala sempre na primeira pessoa do singular. Fala te empurrando, te esfregando, te puxando, te futucando, se superestimando. Você, encurralado, busca a primeira solução que surgir.  Ele não parece disposto a permitir soluções alheias. Você tenta uma brecha ansiosamente, até que ele percebe as peruas vadias ao lado e distrai-se num par de segundos. Finge que prepara um bote, o fanfarrão. É a sua deixa finalmente. Lá vai você com tudo: Joelson, foi muito bom te ver mas já estava de saída. Amanhã é minha vez de ficar com as crianças.

Foge ouvindo um “Espera aí”.

 

                                                     

 



Escrito por los inertes às 06h58
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ANIMAIS DE ESTIMAÇÃO

 

Ela se cansou de animais de estimação e resolveu casar-se com Jonas. Não que ele não fosse um animal — de estimação — pelo contrário. No puro sentido da palavra, tratava-se de uma excelente diversão. Puxava com desenvoltura o arado, fazia previsões meteorológicas certeiras, domesticava gansos, uivava o suficiente para afugentar pássaros nocivos, pescava com as mãos, era um notável vigilante, veloz como um antílope, sagaz como um velho macaco, fornicador incansável. Se não entretinha Ofélia com truques ou com o clavicórdio, lá vinham as piadas. Piadas de corcundas, de padres, de galinhas que colocavam ovos cor-de-rosa vendidos nos botequins, da mãe que subiu no telhado. Ah! Ele também costumava subir no telhado para se exibir e freqüentava botequins, onde se empanturrava de ovos cor-de-rosa e cerveja negra com tutano. Ela o amava. Queria escolher qualquer um, mas os homens apenas pensavam em comê-la. Era dona de um corpo e tanto, os seios apontavam para as estrelas, suas pernas eram magníficas, caminhava com elegância, os braços, leves, de uma leveza que começava nas suas costas, na sua envergadura frágil, e ia espalhando-se por todo o ambiente. Uma lebre de imaginação fértil, olhar aristocrático, e que sabia muito bem cativar e desvencilhar-se de um suposto pretendente. Deixava-se persuadir. Tinha a exata noção de como insinuar que possuíam afinidades e de como esquecê-las. Ofélia e Jonas não tinham afinidades. No princípio, pareciam evidentes. Evidentes demais para não serem colocadas à prova. Julgavam o tempo curto, queriam distendê-lo e descuidavam, e daí surgiram as acomodações. Primeiro veio o período da estranheza, depois o da submissão. Lá pelas tantas ele chegava em casa no horário estipulado. Ela estava pronta com o seu tubinho básico. Ele colocava o tipo de música predileta de Ofélia, fazia-lhe massagens de Do-In no pé, estalando o seu pescoço ao final , abria uma garrafa da melhor champanhe imaginável, acendia um incenso. Ela estava pronta e chamegosa. Ela  submeteria-se.

Vieram mais algumas fases, sem que a fase da submissão fosse superada. Por isso, tudo acabou, sem que nenhum dos dois desejasse o fim.

 

                         

                                     Saphic couple - Auguste Rodin



Escrito por los inertes às 20h46
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A FAMA A QUALQUER CUSTO

 

Foi num programa de atrações bizarras, onde imitaria Zagalo. Eliminado. Mais parecia uma imitação de Roberto Carlos. Não se conformou com a eliminação, mostrou o papel de caderno. Um rabisco mal feito. Close das câmeras. Ele disse que na verdade o seu show estava apenas começando. O apresentador, como o programa estava adiantado e era mesmo uma espécie de vale-tudo, disse que daria uma chance. Está bem uma nova chance. Qual a segunda parte do show? Pois bem, estão vendo esse autógrafo de Michael Jackson aqui? Vou transformá-lo num autógrafo do Dalai Lama. O calouro não haveria de ter futuro como humorista. Mas o que é a natureza! Não era o tipo cujas feições convidam a uma boa gargalhada. Anunciava aqueles disparates como um piloto de Boeing anuncia as condições meteorológicas. Vá lá... É isso? Transformar um autógrafo do rei da dancing music em um do líder espiritual do Tibet, que percorre o mundo em pregações, um Xamã.

Esfregou o papel com a mão. Quando ele mostrou o novo autógrafo, a platéia ficou perplexa. Algum especialista poderia se interessar pelo caso e atestar sua autenticidade. Mas não seria ali, e foi eliminado mais uma vez. Os garranchos não eram, de fato, os mesmos. Pelo menos isso.

O calouro disse que o seu número ainda poderia continuar. Mas o assistente de direção alertou que chegava. Ele ainda, sendo retirado pelos seguranças, anunciou que poderia dançar à la Michael Jackson qualquer música do Roberto Carlos e a cantaria adaptando as letras com ensinamentos do grande Dalai Lama.  Queria a fama a qualquer custo.

 

                                                      



Escrito por los inertes às 09h01
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RANCORES

 

Sentou-se ao computador. O telefone tocou e prosseguiu. Não importa. O telefone não parava de tocar. Como tem gente insistente!

Sempre se arrependia quando era tarde demais. Seu amor-próprio era precário, por isso estava ali escrevendo aquele e-mail: “não devemos alimentar rancores”. Aquela frase o deixou estático. Por que começar assim? Mais uma das suas frase feitas. Ela nunca o perdoaria. Talvez fosse um excelente ponto de partida para todo tipo de interpelações.  O telefone não pára. Foi atender, ficaria louco se não o fizesse.

“Alô?”

“Alô, seu canalha”, era uma mulher e ele não reconheceu a voz.

“Quem fala?”

“Você não sabe? Não seja cínico?”

“Realmente não sei.”

“Hipócrita!”

“Não reconheço a sua voz.”

“Mas eu reconheço muito bem a sua.”

“Então, quem é você?”

“Hipócrita!!!”

“Vou desligar então. Já que você não quer se identificar.”

“Cínico, Safado.”

“Querida... seja lá quem for... não devemos alimentar rancores”, desligou.

 

                         



Escrito por los inertes às 09h20
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